Jovem perde bebê de 32 semanas após atendimento em maternidade de Goiânia
Mãe afirma que procurou a Maternidade Célia Câmara após perceber redução dos movimentos da filha e questiona ausência de exame de imagem; unidade diz que, no primeiro atendimento, havia batimentos e movimentação fetal e afirma que protocolos serão revisados
Uma jovem de Goiânia perdeu a filha, que estava na 32ª semana de gestação, após procurar atendimento na Maternidade Célia Câmara por perceber que o bebê havia deixado de se movimentar. O primeiro atendimento ocorreu na quinta-feira (27), e a morte fetal foi confirmada na madrugada desta terça-feira (1º), quando a gestante retornou à unidade.
A mãe, Natieli Oliveira, questiona a conduta adotada no primeiro atendimento e afirma que não foi submetida a ultrassonografia naquele momento. Segundo ela, a filha, Cecília, apresentava redução dos movimentos desde o dia anterior. A maternidade, por outro lado, afirma que a paciente apresentava, na ocasião, batimentos cardíacos fetais de 148 batimentos por minuto e movimentação fetal, além de condições clínicas consideradas estáveis.
Primeiro atendimento ocorreu em 27 de agosto
De acordo com a versão apresentada pela maternidade, Natieli chegou à unidade em 27 de agosto, com 32 semanas e um dia de gestação. A avaliação registrada pela instituição indicava pressão arterial de 130 por 80 mmHg, ausência de sangramento e contrações, colo uterino fechado e batimentos cardíacos fetais de 148 bpm.
A unidade também afirma que houve aceleração transitória dos batimentos e movimentação fetal durante a avaliação. Com base nesses parâmetros, a paciente recebeu atendimento e posteriormente deixou a maternidade.
Natieli, entretanto, relata uma percepção diferente sobre o episódio. Segundo ela, procurou atendimento justamente porque havia notado que a bebê não se movimentava como antes. A jovem afirma que o médico utilizou um sonar portátil para verificar os batimentos cardíacos, mas não solicitou ultrassonografia.
A ausência de um exame de imagem naquele primeiro atendimento é um dos principais pontos questionados pela família. A mãe considera que uma investigação complementar poderia ter identificado alguma alteração. Essa avaliação, porém, é uma alegação da família e não representa, até o momento, uma conclusão médica ou pericial sobre a causa da morte.
Retorno à maternidade e confirmação da morte fetal
Na madrugada de 1º de setembro, quatro dias depois do primeiro atendimento, Natieli voltou à Maternidade Célia Câmara. Conforme a unidade, ela chegou às 2h16 e foi atendida por um médico às 2h40.
Dessa vez, a gestante apresentava cólicas esporádicas e pequena perda de sangue. A equipe realizou exame obstétrico, novas avaliações com sonar Doppler e cardiotocografia.
Segundo a maternidade, os batimentos cardíacos fetais não foram identificados durante essas avaliações. Diante da suspeita de óbito fetal, foi solicitada uma ultrassonografia obstétrica com Doppler, que confirmou a morte da bebê.
A unidade informou ainda que a paciente recebeu assistência durante o atendimento, incluindo analgesia, e que, após a confirmação do óbito fetal, foram adotadas medidas para indução do parto.
A confirmação ocorreu quando a gestação estava próxima do terceiro trimestre completo. A morte fetal, contudo, não teve sua causa determinada nas informações divulgadas até o momento.
Mãe questiona atendimento e relata dificuldade para realizar cesárea
Além da avaliação feita no primeiro atendimento, Natieli também questionou a condução do parto depois da confirmação da morte da filha.
Segundo o relato da jovem, após a confirmação do óbito, ela teria sido informada inicialmente de que poderia escolher entre cesárea e parto vaginal. Posteriormente, conforme sua versão, a cesárea teria sido descartada sob a justificativa de que o centro cirúrgico estava lotado.
Ela afirma que acabou sendo submetida à indução do parto vaginal.
A maternidade, na nota divulgada sobre o caso, não apresentou detalhamento específico sobre a alegada negativa de cesárea. A instituição afirmou, porém, que adotou as medidas consideradas adequadas após a confirmação do óbito e que a paciente recebeu assistência e analgesia durante o período de atendimento.
Maternidade diz que atendimento seguiu protocolos
Em posicionamento divulgado sobre o caso, a Maternidade Célia Câmara afirmou que os atendimentos realizados com Natieli seguiram os protocolos assistenciais e foram baseados na avaliação clínica apresentada em cada momento.
A unidade também informou que os protocolos relacionados ao atendimento serão revisados pela direção. Segundo a instituição, caso sejam identificadas necessidades de alteração, os fluxos poderão ser corrigidos e as medidas consideradas cabíveis serão adotadas.
A revisão é relevante porque permite avaliar tecnicamente a sequência dos procedimentos realizados nos dois atendimentos e verificar se as condutas adotadas foram compatíveis com o quadro apresentado pela paciente em cada ocasião.
Até o momento, porém, não há informação oficial que estabeleça que a morte fetal tenha sido provocada pelo primeiro atendimento ou por eventual ausência de exame de imagem.
Caso envolve duas versões que ainda precisam ser esclarecidas
O episódio reúne dois momentos clínicos distintos.
No primeiro, em 27 de agosto, a maternidade afirma que foram identificados batimentos cardíacos e movimentação fetal. No segundo, em 1º de setembro, novos exames não encontraram atividade cardíaca, e a ultrassonografia confirmou o óbito.
A diferença entre as duas situações não permite, por si só, estabelecer a causa da morte ou responsabilizar profissionais. Para isso, seriam necessários elementos médicos e eventualmente periciais capazes de esclarecer quando ocorreu a morte fetal, quais fatores podem ter contribuído para o desfecho e se houve alguma alteração clínica que pudesse ter sido identificada anteriormente.
A própria revisão anunciada pela Maternidade Célia Câmara poderá contribuir para a análise interna da assistência prestada.
Relato de problema anterior na gestação
Natieli também relatou que já havia enfrentado dificuldades durante a gravidez. Segundo ela, no início da gestação ocorreu um descolamento de placenta e houve problemas relacionados à orientação e à assistência recebida na mesma unidade.
Esse relato, assim como as críticas ao atendimento de 27 de agosto, integra a versão apresentada pela paciente e deve ser analisado separadamente dos fatos documentados pela maternidade.
A principal questão agora é esclarecer, com base nos registros médicos e nas avaliações técnicas, o que ocorreu entre o primeiro atendimento e a confirmação da morte fetal.
O que ainda precisa ser esclarecido
O caso coloca em discussão aspectos importantes da assistência obstétrica, especialmente diante da queixa de redução ou ausência de movimentos fetais durante uma gestação avançada.
Entre os pontos que precisam ser esclarecidos estão a evolução clínica da gestante entre os dois atendimentos, os registros médicos realizados na primeira consulta, os exames efetivamente feitos, os critérios utilizados para a alta e as circunstâncias que levaram à confirmação do óbito quatro dias depois.
Também será necessário distinguir eventual falha assistencial de uma possível complicação obstétrica que pudesse ocorrer mesmo diante de atendimento adequado.
Até que análises médicas, documentos e eventuais apurações independentes esclareçam esses pontos, não é possível afirmar que houve negligência ou que a morte poderia necessariamente ter sido evitada.
O caso permanece marcado pelo contraste entre o relato da família e a versão apresentada pela maternidade. Enquanto a mãe questiona a assistência recebida antes da perda da filha, a unidade sustenta que os procedimentos adotados foram compatíveis com os protocolos e anunciou uma revisão interna do atendimento.
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