A vitória do Goiás por 2 a 1 sobre o CRB, na noite de segunda-feira (2), pela 36ª rodada da Série B do Campeonato Brasileiro, foi acompanhada por uma revelação sobre a situação financeira do clube. Após a partida, o técnico Mozart Santos afirmou que jogadores e integrantes da comissão técnica estão há quase quatro meses sem receber salários.

‘Quase quatro meses sem receber’: Mozart expõe crise salarial do Goiás após vitória sobre CRB (Foto: GEC)

A declaração expôs a dimensão dos problemas enfrentados internamente pelo clube justamente em um momento de recuperação esportiva. O Goiás chegou ao quinto jogo consecutivo sem derrota, com quatro vitórias e um empate, e segue na disputa por uma vaga no grupo de acesso à próxima fase da competição.

Durante a entrevista após o confronto na Serrinha, Mozart elogiou o comprometimento dos profissionais mesmo diante dos atrasos. O treinador também cobrou a regularização dos pagamentos e manifestou confiança na capacidade de recuperação financeira da instituição.

Segundo ele, os jogadores são trabalhadores que mantêm a dedicação às atividades e merecem receber pelos serviços prestados. Mozart afirmou esperar que a direção consiga normalizar a situação.

Protesto do elenco já havia exposto pendências

A manifestação do treinador ocorre pouco mais de um mês depois de um protesto público dos jogadores. Em 20 de setembro, após a vitória sobre o Avaí por 2 a 1, o elenco decidiu não conceder entrevistas. Mozart também deixou de participar da coletiva em solidariedade aos atletas.

No dia seguinte, jogadores divulgaram uma carta aberta na qual relataram atrasos em salários registrados em carteira, direitos de imagem e premiações por vitórias. O documento mencionava que o grupo convivia com promessas de regularização dos compromissos financeiros.

Na ocasião, informações divulgadas pelo ge apontavam dois meses de salários atrasados, dois meses de direitos de imagem e cinco premiações por vitórias pendentes. Funcionários de outros setores do clube também enfrentavam atrasos.

As dificuldades não eram recentes. Em maio, o então diretor de futebol Michel Alves havia reconhecido a existência de pendências salariais e relacionadas aos direitos de imagem. Em julho, o dirigente anunciou a regularização dos salários, mas ainda havia valores de imagem e premiações a serem pagos.

Balanço aponta déficit de R$ 98,1 milhões

A crise nos pagamentos ocorre em meio a um cenário financeiro delicado. O balanço referente a 2025 apresentou déficit de R$ 98,1 milhões, enquanto o endividamento total do Goiás chegou a aproximadamente R$ 114 milhões.

Os ativos registrados somavam cerca de R$ 65 milhões, e o patrimônio líquido ficou negativo em R$ 49,1 milhões. Esse último indicador demonstra que, contabilmente, as obrigações do clube superavam o valor de seus bens e direitos.

A situação também apresentou dificuldades ao longo de 2026. Levantamento do Diário de Goiás, baseado nos balancetes mensais, apontou resultados deficitários em seis dos sete primeiros meses do ano. Em julho, a receita bruta foi de R$ 5,8 milhões, mas o resultado mensal ficou negativo em R$ 2,2 milhões.

O clube também enfrentou restrições para registrar jogadores em razão de pendências financeiras que motivaram uma punição da Fifa, posteriormente superada.

Empréstimos foram discutidos para enfrentar a crise

Em setembro, o Goiás anunciou a aprovação de um empréstimo de R$ 21 milhões, apresentado como uma medida para quitar compromissos com o elenco e garantir o pagamento dos salários até o encerramento da temporada. O Centro de Treinamento Coimbra Bueno, em Aparecida de Goiânia, foi oferecido como garantia da operação.

Naquele período, Mozart relatou que o presidente do Conselho Deliberativo, Paulo Rogério Pinheiro, havia conversado com jogadores e integrantes da comissão técnica sobre as perspectivas de regularização financeira.

Em outubro, uma nova operação de crédito entrou na pauta do clube. Uma reunião extraordinária do Conselho Deliberativo foi convocada para analisar a possibilidade de um empréstimo de R$ 22 milhões.

Entretanto, as informações disponíveis não confirmam a conclusão dessa segunda operação nem demonstram que os recursos tenham sido utilizados para quitar integralmente as pendências. A declaração mais recente de Mozart indica que os atrasos salariais continuavam.

Renúncia de presidente ampliou instabilidade administrativa

A crise financeira também foi acompanhada por mudanças na estrutura de comando do Goiás. Em 7 de outubro, Aroldo Guidão renunciou à presidência executiva. O vice-presidente jurídico, Munir Calixto Júnior, assumiu a função.

A saída ocorreu após meses de cobranças de torcedores, discussões no Conselho Deliberativo e dificuldades financeiras. Na ocasião, questionado sobre a mudança, Mozart afirmou que não tinha conhecimento da renúncia e preferiu não comentar a decisão.

O cenário coloca o clube diante de desafios simultâneos: manter o desempenho esportivo na reta final da Série B, reorganizar as finanças e regularizar os compromissos com jogadores, comissão técnica e demais funcionários.

Mesmo com a sequência positiva dentro de campo, a declaração do treinador mostra que a situação financeira permanece como um problema central na rotina do Goiás. A regularização dos pagamentos é uma das principais questões para a estabilidade interna do clube enquanto a equipe tenta alcançar seus objetivos na competição.

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