Goiânia prepara nova etapa de revitalização do Centro com recuperação de fachadas
Plano da Prefeitura busca recuperar elementos arquitetônicos, estimular a moradia e movimentar uma das áreas mais tradicionais da capital

A Prefeitura de Goiânia prepara uma nova etapa do processo de requalificação da região central da capital, com a recuperação de fachadas de imóveis e valorização do patrimônio arquitetônico. A iniciativa integra uma estratégia mais ampla da gestão do prefeito Sandro Mabel para aumentar a ocupação residencial, estimular a atividade econômica e recuperar a identidade histórica do Centro.
A revitalização das fachadas, especialmente de imóveis que preservam características do estilo Art Déco, é tratada pelo município como uma das ações capazes de modificar a paisagem urbana. A proposta é retirar elementos que escondem características originais dos edifícios e recuperar construções que fazem parte da história de Goiânia.
A medida, entretanto, não está sendo planejada de forma isolada. A Prefeitura trabalha com um conjunto de iniciativas que têm como principal objetivo aumentar a presença de moradores e atividades permanentes no Centro. Entre elas está o Programa Morar no Centro, aprovado em definitivo pela Câmara Municipal em 8 de setembro de 2026.
Morar no Centro é uma das principais apostas
O Programa Morar no Centro foi criado pelo Projeto de Lei Complementar nº 10/2026, de autoria do Executivo. A proposta estabelece mecanismos para estimular a ocupação habitacional do Setor Central, aproveitando uma área que já possui infraestrutura urbana, transporte, comércio e serviços.
Entre os mecanismos previstos está um subsídio para parte do aluguel de imóveis participantes. O benefício terá duração inicial de 24 meses, com possibilidade de prorrogação por até 12 meses. O perímetro atendido pelo programa, os valores e os procedimentos de cadastramento ainda serão definidos pelo Poder Executivo.
A legislação também contempla imóveis que estejam fechados ou desocupados há mais de 12 meses, hotéis e edificações comerciais que possam ser adaptadas para moradia, além de novas construções residenciais e prédios requalificados.
A estratégia pretende enfrentar um dos principais desafios da região central: a diferença entre o movimento registrado durante o horário comercial e a menor ocupação residencial em determinados períodos.
Segundo a secretária municipal de Governo, Sabrina Garcez, a expectativa da Prefeitura é acrescentar cerca de 10 mil moradores à região com o programa. O número é uma projeção da administração e não representa uma população já incorporada ao Centro.
Incentivos fiscais entram no plano
A Câmara também aprovou alterações tributárias associadas ao programa. Para determinadas novas edificações residenciais e empreendimentos de uso misto, a legislação prevê isenção de IPTU por até 10 anos, observadas as condições estabelecidas no texto aprovado.
Também foram previstos incentivos relacionados ao ITBI e ao ISSQN para atividades vinculadas às obras do programa. No caso de imóveis históricos tombados, a legislação aprovada estabelece redução de IPTU para manutenção preventiva e possibilidade de isenção durante cinco anos para edificações submetidas a restauração ou retrofit, conforme as regras previstas.
O objetivo é tornar economicamente mais atrativa a recuperação de imóveis existentes e a criação de novas unidades habitacionais no Centro.
A proposta, porém, também gerou debate. Críticos dos incentivos questionam a concessão de benefícios fiscais para novas construções em uma região que já possui imóveis vazios ou subutilizados. A discussão envolve a definição de quais tipos de intervenção devem receber prioridade: construir novos edifícios ou recuperar estruturas que já fazem parte da paisagem urbana.
Fachadas são parte da recuperação do patrimônio
A preocupação com as fachadas está diretamente relacionada à preservação do patrimônio histórico de Goiânia. A capital possui um conjunto expressivo de edificações Art Déco, especialmente na região central, mas parte dessas características acabou escondida por placas, estruturas comerciais e alterações realizadas ao longo dos anos.
O prefeito Sandro Mabel já havia anunciado que a administração pretende aplicar medidas para recuperar a aparência original de edifícios e permitir que elementos arquitetônicos do Art Déco voltem a ser percebidos na paisagem urbana. A estratégia também foi associada ao programa Morar no Centro.
A proposta ganhou força no contexto das ações de valorização do patrimônio arquitetônico de Goiânia. Em janeiro deste ano, durante evento relacionado ao centenário do Art Déco, Mabel afirmou que a Prefeitura pretendia revitalizar fachadas que atualmente escondem características desse estilo.
Centro precisa de mais do que prédios recuperados
A recuperação estética dos imóveis é apenas uma parte do desafio. A revitalização efetiva de uma região central depende também de moradores, comércio, transporte, segurança, limpeza, iluminação, espaços públicos e atividades culturais.
Esse entendimento aparece tanto nas ações previstas pelo município quanto no debate na Câmara. O vereador Lucas Kitão, relator do Morar no Centro, defendeu que a recuperação das fachadas seja acompanhada por medidas relacionadas à mobilidade, segurança, limpeza urbana e atendimento à população em situação de rua.
A própria proposta do antigo Centraliza já previa uma série de intervenções além das fachadas, incluindo requalificação de espaços públicos, incentivos fiscais, valorização do patrimônio, melhorias de infraestrutura e ações voltadas à circulação de pedestres.
A gestão Mabel, entretanto, decidiu trabalhar com intervenções por etapas. Em vez de retomar integralmente o projeto anterior, o prefeito afirmou que pretende executar ações de maneira mais focalizada, priorizando iniciativas consideradas capazes de produzir efeitos concretos em pontos estratégicos do Centro.
Desafio é transformar plano em mudança permanente
A recuperação do Centro de Goiânia não é uma discussão recente. A região já recebeu diferentes projetos de revitalização ao longo das últimas décadas, com propostas envolvendo patrimônio histórico, comércio, mobilidade e ocupação residencial.
O atual conjunto de medidas busca combinar dois objetivos: recuperar a paisagem e aumentar a utilização da infraestrutura existente. A lógica é que mais moradores possam gerar demanda permanente por comércio, serviços, restaurantes e outras atividades, criando movimento também fora do horário tradicional de funcionamento das lojas.
O programa aprovado pela Câmara representa, portanto, uma etapa institucional já definida. A recuperação das fachadas e outras intervenções urbanas, por sua vez, ainda dependem da regulamentação, definição dos imóveis, critérios técnicos e execução das medidas anunciadas.
O resultado dessa estratégia será medido não apenas pela aparência dos prédios, mas pela capacidade de fazer o Centro voltar a concentrar moradia, comércio, cultura, turismo e circulação cotidiana de forma permanente.
A revitalização das fachadas pode mudar a paisagem de Goiânia, mas o desafio maior é transformar essa recuperação visual em uma política urbana capaz de devolver ao Centro uma função mais ampla na vida da capital.
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