Minerais críticos podem transformar economia de Goiás e elevar PIB em até 10% até 2050
Estudo da Amcham aponta potencial bilionário para o Estado com expansão da mineração, processamento de terras raras e atração de investimentos; desafio é fazer Goiás avançar da extração para uma cadeia industrial de maior valor agregado

Goiás pode ampliar de forma significativa sua participação na economia brasileira nas próximas décadas a partir de uma riqueza que já está no subsolo, mas cuja exploração ainda tem grande espaço para avançar: os minerais críticos e as terras raras. Um estudo da Amcham Brasil estima que a expansão dos investimentos nesse segmento poderá elevar o Produto Interno Bruto (PIB) goiano em até 10% até 2050, em um cenário de maior industrialização, processamento mineral e participação do capital estrangeiro.
A projeção coloca Goiás entre os estados que podem obter alguns dos maiores efeitos econômicos da nova corrida mundial por minerais considerados estratégicos. No Brasil, o estudo estima que o desenvolvimento mais amplo dessa cadeia poderá acrescentar R$ 192,1 bilhões ao PIB nacional e contribuir para a criação de aproximadamente 750 mil empregos até 2050.
O resultado, porém, não depende apenas de retirar mais minério do solo. A principal oportunidade identificada está na transformação da riqueza mineral em produtos de maior valor agregado, com investimentos em beneficiamento, refino, processamento e, posteriormente, em atividades industriais capazes de utilizar esses materiais na fabricação de componentes e tecnologias.
Goiás entra no mapa mundial dos minerais estratégicos
A importância dos minerais críticos aumentou à medida que governos e empresas passaram a buscar novas fontes de matérias-primas necessárias para tecnologias associadas à transição energética, à eletrificação dos transportes, à geração de energia renovável, à indústria eletrônica e a setores estratégicos.
A classificação de um mineral como crítico está relacionada, de forma geral, à combinação entre sua importância econômica e o risco de interrupção ou concentração de seu fornecimento. Isso transformou reservas minerais em ativos de importância econômica e também geopolítica.
O Brasil possui reservas expressivas de diferentes minerais considerados estratégicos, entre eles nióbio, níquel, grafita e terras raras. O problema apontado por especialistas é que boa parte dessa riqueza ainda deixa o país em estágios iniciais da cadeia produtiva.
Em outras palavras, o Brasil possui a matéria-prima, mas ainda importa parcela significativa dos produtos de maior complexidade fabricados a partir dela.
É justamente nessa diferença entre extrair e transformar que aparece uma das maiores oportunidades para Goiás.
Estudo apresenta dois cenários para o Brasil
A análise da Amcham considera dois caminhos possíveis para a expansão da cadeia de minerais críticos e terras raras no Brasil.
No primeiro cenário, os investimentos são predominantemente nacionais e a produção continua concentrada na exportação de matérias-primas, com pouca agregação de valor no território brasileiro. Nesse modelo, o impacto estimado sobre o PIB brasileiro chega a R$ 128,7 bilhões, acompanhado da criação de cerca de 304 mil empregos.
O segundo cenário é mais ambicioso. Ele considera maior participação de investimentos estrangeiros, ampliação do processamento mineral no país e crescimento da utilização desses insumos pela própria indústria brasileira.
Nesse caso, os investimentos adicionais estimados chegam a R$ 120,9 bilhões, enquanto o impacto acumulado sobre o PIB nacional alcançaria R$ 192,1 bilhões, com aproximadamente 750 mil novos empregos.
Os maiores efeitos econômicos tendem a aparecer justamente nos estados que concentram a atividade mineral, entre eles Goiás.
Para o Estado, a estimativa de crescimento de até 10% do PIB representa um potencial, e não uma previsão automática. O tamanho desse impacto dependerá da capacidade de Goiás atrair capital, tecnologia e empresas capazes de avançar pelas diferentes etapas da cadeia produtiva.
Minaçu já possui uma operação estratégica
O potencial goiano não é apenas uma possibilidade distante. O Estado já abriga uma operação comercial de terras raras em Minaçu, no Norte de Goiás, conduzida pela Serra Verde Pesquisa e Mineração.
A empresa iniciou a produção comercial em 2024 e trabalha na expansão de sua capacidade. Segundo informações do Governo de Goiás, a operação é atualmente a única extração comercial em larga escala de terras raras em funcionamento no Brasil.
A relevância da unidade está nos elementos produzidos, entre eles neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Esses materiais são utilizados em ímãs permanentes de alto desempenho empregados em tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, robótica e equipamentos de setores aeroespacial e de defesa.
A Agência Nacional de Mineração também registra o início da operação do depósito de terras raras de argilas iônicas em Pela Ema, no município de Minaçu, em Goiás.
A presença dessa estrutura coloca o Estado em uma posição diferenciada na discussão sobre a nova cadeia mundial de minerais críticos.
O próximo passo é industrializar
Apesar do avanço da mineração em Minaçu, o principal desafio econômico está além da mina.
A estratégia defendida pelo governo goiano é aumentar o processamento das terras raras no próprio Estado, reduzindo a dependência de estruturas industriais localizadas no exterior.
Essa discussão ganhou força em 2026, com o avanço de acordos envolvendo a Serra Verde e a empresa norte-americana USA Rare Earth. O objetivo anunciado é ampliar a integração da cadeia, incluindo etapas relacionadas à separação, processamento e produção de materiais de maior valor agregado.
A questão tecnológica é decisiva porque separar e transformar terras raras exige conhecimento especializado, instalações industriais e investimentos elevados.
Por isso, a próxima etapa da estratégia goiana passa necessariamente por parcerias com empresas que dominam essas tecnologias, além de financiamento, pesquisa e desenvolvimento de mão de obra especializada.
O próprio Governo de Goiás afirma trabalhar para que as terras raras sejam processadas no Estado, e não apenas extraídas e enviadas para outras localidades.
Catalão amplia o peso mineral de Goiás
Minaçu não é o único ponto de atenção.
Na região Sudeste do Estado, Catalão possui uma longa tradição de mineração e indústria e também integra a estratégia de expansão da cadeia de minerais críticos. A região abriga operações da CMOC e atividades relacionadas ao nióbio.
O município vem tentando avançar de uma posição tradicionalmente associada à extração e ao beneficiamento mineral para uma estrutura com maior participação em pesquisa, tecnologia e inovação.
A Universidade Federal de Catalão (UFCat) participa desse movimento por meio de pesquisas voltadas ao processamento mineral. Em 2025, o município anunciou a criação de um centro de excelência em terras raras em parceria com a universidade, com a intenção de fortalecer pesquisa, desenvolvimento tecnológico e atração de investimentos.
Em 2026, uma comitiva da Universidade de Geociências da China também visitou Catalão para conhecer o potencial mineral do município, em mais um sinal do interesse internacional sobre a região.
A presença de universidades, empresas de mineração, infraestrutura industrial e mão de obra especializada pode ser importante para que o Estado avance para etapas mais sofisticadas da cadeia.
O que Goiás pode ganhar
A transformação da mineração em uma cadeia industrial mais completa pode produzir efeitos que vão além do valor diretamente gerado pelas empresas mineradoras.
Uma cadeia verticalizada tende a movimentar fornecedores, serviços especializados, transporte, engenharia, manutenção, tecnologia, pesquisa e formação profissional.
Também pode ampliar a arrecadação pública e estimular a instalação de novas empresas próximas aos polos minerais, desde que os investimentos sejam acompanhados de infraestrutura adequada e segurança jurídica.
O efeito econômico, portanto, não estaria restrito aos municípios onde estão localizadas as minas.
A criação de um ambiente industrial especializado poderia beneficiar diferentes regiões do Estado, principalmente aquelas conectadas por infraestrutura logística e capazes de receber empresas de transformação mineral.
A disputa mundial por minerais aumenta a importância de Goiás
A corrida pelos minerais críticos ocorre em um momento de transformação das cadeias industriais globais.
Países buscam diminuir a dependência de poucos fornecedores e garantir acesso a matérias-primas consideradas essenciais para tecnologias estratégicas. O Brasil aparece nesse cenário devido à dimensão de suas reservas, enquanto Goiás possui posição relevante por concentrar projetos de minerais críticos e terras raras.
Segundo o Governo de Goiás, o Estado está entre os principais produtores minerais do país e concentra projetos avançados no setor de terras raras, incluindo a operação da Serra Verde e empreendimentos em diferentes estágios de desenvolvimento.
Esse cenário também explica o crescente interesse de investidores estrangeiros.
Para Goiás, a questão central será transformar esse interesse em investimentos permanentes, empregos qualificados, tecnologia e industrialização local.
O risco de continuar exportando apenas matéria-prima
O maior obstáculo apontado pelo debate sobre minerais críticos é conhecido na economia como baixa agregação de valor.
Quando um país extrai o minério, realiza apenas etapas básicas de beneficiamento e exporta o produto, boa parte do valor econômico da cadeia é criada fora de suas fronteiras.
O cenário muda quando o material é processado, refinado e utilizado pela indústria para produzir componentes e produtos tecnológicos.
A própria experiência brasileira mostra esse desafio. O estudo da Amcham destaca que o país ainda possui baixa verticalização em determinadas cadeias de minerais críticos, mantendo características de grande exportador de commodities e importador de produtos industrializados derivados desses recursos.
Para Goiás, isso significa que aumentar a produção mineral, isoladamente, pode não ser suficiente para alcançar o potencial econômico indicado pelo estudo.
A transformação da matéria-prima em tecnologia é o ponto que pode ampliar o impacto sobre o PIB, a produtividade e o mercado de trabalho.
Investimento estrangeiro pode acelerar transformação
A participação de capital internacional aparece como um dos componentes do cenário de maior impacto econômico projetado pela Amcham.
O interesse estrangeiro pode trazer não apenas recursos financeiros, mas também tecnologia, conhecimento industrial e acesso a mercados consumidores.
No caso das terras raras, essa combinação é especialmente relevante porque as etapas posteriores à mineração exigem tecnologias específicas de separação, processamento e fabricação.
A estratégia defendida para Goiás envolve, portanto, a formação de parcerias entre empresas brasileiras e grupos internacionais, além da utilização de mecanismos de financiamento e apoio à inovação.
O objetivo seria criar uma cadeia que comece na mineração, passe pelo processamento e chegue a produtos industriais de maior valor.
Serra Verde prepara expansão
A operação de Minaçu já está em processo de crescimento.
Segundo informações divulgadas pelo Governo de Goiás, a Serra Verde emprega aproximadamente 400 pessoas, com predominância de trabalhadores residentes no próprio município. A empresa também trabalha para ampliar sua capacidade produtiva.
O empreendimento recebeu financiamento internacional para apoiar a expansão e a otimização da operação, reforçando a dimensão estratégica que o projeto passou a assumir no mercado global de terras raras.
A empresa também avalia possibilidades de expansão da produção, o que pode ampliar ainda mais o peso de Goiás nesse mercado.
O avanço da produção, entretanto, deverá ser acompanhado pela discussão sobre o destino do material e sobre a capacidade de realizar dentro do Brasil as etapas de maior valor agregado.
Uma oportunidade que depende de política industrial
O potencial econômico apontado para Goiás não se concretizará apenas pela existência de reservas minerais.
Será necessário combinar investimento privado, financiamento, infraestrutura, pesquisa científica, qualificação profissional, licenciamento ambiental, segurança jurídica e políticas públicas capazes de estimular a instalação de novas etapas industriais.
A agenda também envolve desafios ambientais e sociais próprios da mineração. O crescimento do setor precisa ocorrer dentro das regras de licenciamento e fiscalização, com controle dos impactos e acompanhamento dos compromissos ambientais.
Nesse contexto, a expansão dos minerais críticos representa para Goiás uma oportunidade econômica de longo prazo, mas também exige planejamento para evitar que o Estado permaneça restrito à exportação de recursos naturais.
Goiás diante de uma nova fronteira econômica
A estimativa de até 10% de impacto sobre o PIB goiano até 2050 coloca os minerais críticos entre os setores que podem influenciar a estrutura econômica do Estado nas próximas décadas.
O número, porém, deve ser interpretado como uma projeção condicionada à realização de investimentos e ao desenvolvimento da cadeia produtiva.
Goiás já possui ativos importantes: uma operação comercial de terras raras em Minaçu, tradição mineral e industrial em Catalão, projetos em desenvolvimento, instituições de pesquisa e crescente interesse internacional.
O desafio agora é transformar essa vantagem geológica em vantagem industrial.
Se conseguir avançar do minério extraído para o processamento, da matéria-prima para a tecnologia e da exportação de commodities para produtos de maior valor agregado, Goiás poderá ampliar significativamente o retorno econômico de seus recursos minerais.
É nesse ponto que está a principal disputa dos próximos anos: não apenas quem possui o minério, mas quem terá capacidade de transformar essa riqueza em indústria, conhecimento, empregos e desenvolvimento.
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