Investigação iniciada em Goiás leva MPF a denunciar 33 por tráfico internacional de drogas
Apreensão de quase meia tonelada de cocaína em Santa Rita do Araguaia deu origem à Operação Rota Andina, que revelou uma organização criminosa com atuação internacional e levou ao bloqueio judicial de R$ 78,1 milhões em bens.

Uma investigação iniciada pela Polícia Civil de Goiás após a apreensão de 470,8 quilos de cloridrato de cocaína em uma pista de pouso clandestina no município de Santa Rita do Araguaia, no sudoeste goiano, resultou na denúncia de 33 pessoas pelo Ministério Público Federal (MPF). Conforme a acusação, os investigados são apontados como integrantes de uma organização criminosa transnacional voltada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de dinheiro.
No âmbito da mesma investigação, a Justiça Federal determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 78,1 milhões em bens e ativos financeiros dos investigados. A decisão alcança imóveis, aeronaves, veículos de alto padrão e recursos mantidos em instituições financeiras, medida destinada a preservar eventual ressarcimento e impedir a movimentação patrimonial durante a tramitação do processo.
Apreensão em Goiás deu origem à investigação
As investigações tiveram início em 20 de abril de 2025, quando equipes policiais localizaram uma aeronave que havia pousado em uma pista clandestina na zona rural de Santa Rita do Araguaia.
Dentro do avião foram encontrados 450 tabletes de cocaína, totalizando 470,8 quilos da droga, carga avaliada em aproximadamente R$ 25 milhões, segundo estimativas apresentadas durante a investigação.
Os dois ocupantes da aeronave tentaram fugir por uma área de mata, mas foram localizados e presos em flagrante. Durante a ocorrência, também foram apreendidos celulares, equipamentos de navegação aérea e anotações contendo coordenadas geográficas relacionadas ao território boliviano.
Conforme o MPF, a análise dos equipamentos eletrônicos, especialmente de um GPS aeronáutico, permitiu reconstituir a rota utilizada pela aeronave entre a região do Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), na Bolívia, e o interior de Goiás.
Estrutura criminosa teria atuação internacional
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal, a investigação revelou uma estrutura organizada, dividida em diferentes núcleos responsáveis por funções específicas dentro do esquema criminoso.
De acordo com o órgão, um dos grupos atuava na logística aérea, providenciando aquisição, financiamento, manutenção e utilização de aeronaves destinadas ao transporte da cocaína.
Outro núcleo seria responsável pelo financiamento das operações e pela ocultação da origem dos recursos, utilizando empresas de fachada, contas bancárias de terceiros e pessoas interpostas para dificultar a identificação dos beneficiários.
A investigação também identificou um segmento voltado à administração patrimonial do grupo, utilizando empresas do setor de transportes para conferir aparência de legalidade aos bens adquiridos.
Já um quarto núcleo, conforme o MPF, teria sido estruturado especificamente para promover a lavagem de dinheiro por meio de empresas ligadas aos setores de construção civil, comércio de gás, aquisição de imóveis, veículos de luxo e operações financeiras paralelas.
Sistema clandestino de remessas ao exterior
Outro aspecto apontado na denúncia envolve a utilização do sistema conhecido como “dólar-cabo”, mecanismo ilegal utilizado para movimentação internacional de recursos sem registro nos canais oficiais do sistema financeiro.
Segundo o Ministério Público Federal, esse método teria sido empregado para enviar dinheiro clandestinamente à Bolívia, destinado ao pagamento de pilotos, abastecimento das aeronaves e demais despesas relacionadas ao transporte da droga.
Esse tipo de operação, segundo especialistas em combate à lavagem de dinheiro, dificulta o rastreamento dos recursos financeiros e costuma ser utilizado por organizações criminosas de atuação internacional.
Investigação apura possível simulação de morte
Entre os fatos investigados está a situação de Arnaldo Agostinho Sottani, apontado pelo MPF como um dos supostos financiadores da organização e comprador oculto da aeronave apreendida em Goiás.
Familiares informaram às autoridades que ele teria morrido em um acidente aéreo. Entretanto, conforme a investigação, não foram encontrados registros do voo, destroços da aeronave ou outros elementos que comprovassem a ocorrência do suposto acidente.
Ainda segundo o Ministério Público Federal, dias antes do desaparecimento, Sottani concedeu procuração com amplos poderes para administração e transferência de seus bens.
Diante dessas circunstâncias, o órgão passou a investigar a hipótese de simulação da própria morte. O MPF solicitou a prisão preventiva do investigado e também pediu sua inclusão na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo utilizado para localização internacional de pessoas procuradas pela Justiça.
Operação alcançou diversos estados
A fase ostensiva da Operação Rota Andina foi deflagrada em maio deste ano.
Durante a ação, foram cumpridos mandados de prisão, busca e apreensão e bloqueio de bens em Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Amazonas, Rio Grande do Norte, Maranhão e no Distrito Federal.
Segundo o Ministério Público Federal, as investigações permanecem em andamento e novas denúncias poderão ser apresentadas caso surjam outros elementos de prova capazes de identificar novos envolvidos ou ampliar a responsabilização dos investigados.
Até a publicação da denúncia, o portal não havia localizado as defesas dos denunciados para manifestação. O espaço permanece aberto para o contraditório e eventuais posicionamentos poderão ser acrescentados posteriormente.
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