Internações por uso de drogas disparam em Goiás e atingem maior nível da série histórica
Levantamento da Secretaria de Estado da Saúde aponta crescimento de quase 40% nas hospitalizações relacionadas ao uso de substâncias psicoativas. Expansão da rede de atendimento, impactos da pandemia e maior acesso aos serviços especializados estão entre os fatores apontados para a alta.

Goiás registrou um aumento expressivo nas internações hospitalares relacionadas ao uso de drogas, alcançando o maior patamar da série histórica. Dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) mostram que o número de hospitalizações cresceu cerca de 40% entre 2024 e 2025, refletindo o avanço da demanda por atendimento especializado em saúde mental e dependência química.
Ao longo de 2025, foram contabilizadas 3.538 internações, enquanto a taxa estadual passou de 39,92 para 47,66 internações por 100 mil habitantes, evidenciando uma tendência consistente de crescimento observada desde o período posterior à pandemia de Covid-19.
Os casos relacionados ao uso de múltiplas substâncias psicoativas representam a maior parte das hospitalizações. Somente em 2025, esse grupo respondeu por 3.129 internações, o maior volume já registrado pelo Estado. Apenas entre janeiro e abril deste ano, a rede pública contabilizou 885 internações, indicando que a pressão sobre os serviços especializados permanece elevada.
Entre as substâncias específicas, os atendimentos ligados ao consumo de cocaína apresentaram o crescimento proporcional mais significativo. O número de internações passou de 259 em 2024 para 360 em 2025, uma alta aproximada de 39%, reforçando o aumento da complexidade dos casos acompanhados pelo sistema público de saúde.
Segundo a gerente de Saúde Mental da SES-GO, Nathália Silva, o cenário observado em Goiás acompanha uma tendência internacional registrada após a pandemia. De acordo com a gestora, além dos impactos sociais e emocionais provocados pelo período, o Estado também ampliou sua capacidade de atendimento com a expansão dos leitos especializados e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), especialmente por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), permitindo que mais pessoas tenham acesso ao tratamento.
O perfil epidemiológico das internações revela predominância de homens entre 30 e 39 anos, que representam 65,5% dos pacientes hospitalizados. Os dados também mostram que 81% dos internados se autodeclaram pardos, indicador que, segundo a Secretaria, evidencia a influência das desigualdades sociais e econômicas na vulnerabilidade ao uso problemático de substâncias psicoativas.
A SES-GO ressalta que o enfrentamento da dependência química exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo assistência médica, acompanhamento psicológico, fortalecimento dos serviços comunitários e políticas públicas voltadas à educação, esporte, cultura e inclusão social. A estratégia estadual também contempla ações permanentes de prevenção, redução de danos e conscientização sobre os riscos associados ao consumo de drogas.
Como parte desse processo, o Governo de Goiás trabalha para consolidar a Política Estadual de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, pactuada com os 246 municípios goianos. Entre as iniciativas previstas está a implantação dos Centros de Convivência e Cultura (Convive), estrutura apoiada pelo Ministério da Saúde que busca ampliar a inclusão social, fortalecer vínculos comunitários e reduzir a necessidade de internações hospitalares por meio de atividades culturais, esportivas e de convivência.
Especialistas destacam que o crescimento das internações não significa, necessariamente, aumento proporcional do consumo de drogas, mas também pode refletir maior capacidade da rede pública em identificar casos graves, ampliar o acesso ao tratamento especializado e oferecer assistência a uma população que anteriormente permanecia sem atendimento adequado.


