CEI do Limpa Gyn: Câmara de Goiânia avança em investigação sob clima de tensão política
Comissão Especial de Inquérito deve ser oficializada no Diário Oficial; iniciativa expõe impasses entre vereadores e o Paço Municipal sobre contratos e gestão da limpeza urbana.

A Câmara Municipal de Goiânia caminha para instaurar, nos próximos dias, uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) destinada a investigar o contrato e a execução dos serviços do consórcio Limpa Gyn, responsável pela coleta de resíduos sólidos na capital. O requerimento, assinado por 17 vereadores de diferentes espectros políticos, deve ser publicado no Diário Oficial do Município (DOM) ainda nesta quarta-feira (20), após despacho do presidente da Casa, Romário Policarpo (PRD).
A decisão ocorre em meio a um ambiente político marcado por pressões, resistências e acusações mútuas entre vereadores e o prefeito Sandro Mabel (UB). Reportagem recente revelou detalhes de uma reunião realizada no Paço Municipal na última segunda-feira (18), na qual Mabel teria mantido postura inflexível diante de parlamentares e minimizado a importância da abertura da comissão. O episódio gerou reações imediatas no Legislativo, acelerando a consolidação da CEI.
Apoios, resistências e riscos políticos
O requerimento da investigação foi protocolado originalmente em 10 de julho, pelo vereador Cabo Senna (PRD), e contou com assinaturas tanto da oposição quanto da base aliada do governo, incluindo o líder do Executivo na Casa, Igor Franco (MDB). Nenhuma assinatura havia sido retirada até o fechamento desta reportagem, embora a pressão política ainda permita recuos de última hora.
Nos bastidores, setores do Legislativo defendiam adiar a instalação da CEI, temendo que o alcance das investigações pudesse respingar em parlamentares ou em agentes ligados a gestões passadas. O clima, no entanto, mudou após o encontro com o prefeito, interpretado por alguns vereadores como demonstração de distanciamento e recusa em negociar nos moldes praticados pelo ex-prefeito Rogério Cruz (SD).
Para analistas políticos, o avanço da CEI representa não apenas um teste para a governabilidade de Mabel, mas também uma oportunidade para a Câmara retomar protagonismo institucional por meio do exercício de sua função fiscalizatória.
Estrutura e composição da CEI
De acordo com o regimento interno, a comissão será composta por sete membros titulares e quatro suplentes, respeitando a proporcionalidade partidária. Após a publicação oficial, os líderes têm 48 horas para indicar os integrantes, que elegerão entre si presidente, vice e relator. O prazo inicial de funcionamento será de 120 dias, prorrogável conforme necessidade.
Embora não tenha subscrito o requerimento, o Partido dos Trabalhadores (PT) terá direito a indicar representante, reforçando o caráter plural da comissão. A vereadora Kátia Maria (PT) declarou que a participação da legenda é “fundamental para assegurar transparência, eficiência e justiça no uso dos recursos destinados à limpeza urbana”.
Confrontos em plenário
O tema dominou a sessão ordinária desta terça-feira (19). Em discursos inflamados, vereadores buscaram se distanciar da narrativa de que a CEI estaria sendo usada como instrumento de pressão sobre o Executivo.
O mais incisivo foi Coronel Urzêda (PL), que afirmou ter assinado o pedido por convicção de que o serviço prestado pelo consórcio é “caro e ineficiente”. Ele negou ter participado da reunião no Paço para negociar cargos e desafiou o prefeito a provar o contrário: “Nunca pedi nada ao Executivo. Assinei a CEI porque entendo que a população paga caro por um serviço que não corresponde”.
Já Aava Santiago (PSDB) alertou para os riscos de desgaste institucional: “Se o prefeito considera a CEI uma chantagem, deve apontar nomes. Generalizar é atacar toda a Câmara e comprometer a credibilidade do Parlamento”.
Na defesa do Executivo, Welton Lemos (SD) e o próprio líder do governo, Igor Franco, insistiram que a reunião com Mabel foi estritamente institucional e restrita à pauta da limpeza urbana.
Divergências internas e próximos passos
A Procuradoria da Câmara emitiu parecer contrário à participação do líder do governo na CEI, sob argumento de que a comissão é instrumento de minoria, o que abriu nova frente de disputa política. Para Urzêda, a manifestação foi “indevida e politizada”.
Para além das tensões, especialistas em gestão pública avaliam que a CEI terá papel central para examinar a legalidade e a eficácia do contrato milionário firmado entre o município e o consórcio Limpa Gyn, que há anos é alvo de críticas por falhas na coleta, custos elevados e supostos favorecimentos políticos.
Com a publicação no DOM, a Câmara abre uma fase de investigações que promete tensionar ainda mais a relação entre Legislativo e Executivo em Goiânia, com potenciais desdobramentos administrativos, jurídicos e eleitorais.
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