23 de janeiro de 2026
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Crise social em Goiânia: Câmara se divide sobre ações da Prefeitura contra pessoas em situação de rua

Enquanto vereadores da base de Sandro Mabel defendem retirada de moradores de rua e o controle da assistência por órgãos oficiais, oposição denuncia repressão a voluntários e políticas de higienização social. Impasse acirra debate sobre dignidade, direitos humanos e exclusão nas ruas da capital.
Foto: Assessoria da Vereadora

A sessão ordinária da Câmara Municipal de Goiânia nesta terça-feira (20) escancarou as tensões entre base governista e oposição diante das recentes ações da Prefeitura contra pessoas em situação de rua. O estopim foi a atuação da Guarda Civil Metropolitana (GCM), que no fim de semana impediu o projeto Banho Solidário de oferecer serviços básicos, como banho e doações, na Praça Joaquim Lúcio, no Setor Campinas.

Aliados do prefeito Sandro Mabel (União Brasil) afirmaram que a ação visa “devolver a praça aos moradores” e disciplinar a oferta de assistência, responsabilizando a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) pela distribuição de doações. A oposição, por sua vez, acusou a Prefeitura de implementar uma política de “higienização social”, marcada por repressão, descaso e desumanidade.

A médica e vereadora Rose Cruvinel (UB) protagonizou um dos discursos mais polêmicos da tarde ao desafiar os parlamentares oposicionistas: “É muito fácil fazer discurso em favor dos descamisados. Pega um e leva pra casa, só isso”. Segundo ela, ações sociais voluntárias devem ser submetidas ao controle institucional da Semasdh para garantir que “sigam a política pública oficial”.

Já o vereador Pedro Azulão Jr. (MDB), também da base, reforçou a narrativa da Prefeitura ao afirmar que “a intenção é devolver a Praça Joaquim Lúcio aos moradores de Campinas”, sugerindo que a permanência dos sem-teto no local compromete a convivência urbana.

Do outro lado do plenário, a reação foi contundente. O vereador Fabrício Rosa (PT), especialista em direitos humanos e ex-policial rodoviário federal, classificou a operação da GCM como uma ordem direta do prefeito e acusou Mabel de não acreditar na força do serviço público. “Essa cidade impede que as pessoas tomem banho. Os milionários da nossa cidade têm horror, nojo, medo e desconhecem as verdadeiras políticas para a população em situação de rua”, disparou.

Fabrício ainda conectou a crise ao aprofundamento da desigualdade estrutural. “A rua não é escolha. É o resultado de um sistema que exclui e empurra. Governar não é esconder a pobreza — é enfrentá-la com políticas públicas sérias.”

A polêmica do Banho Solidário

Criado por voluntários, o projeto Banho Solidário oferece estrutura para higiene básica, distribuição de roupas e alimentação às pessoas em situação de rua. O impedimento da ação na Praça Joaquim Lúcio gerou ampla comoção social, com manifestações nas redes e entre movimentos de assistência. Imagens da GCM impedindo o funcionamento da iniciativa viralizaram e acirraram o debate sobre o papel do poder público diante da vulnerabilidade social.

Em entrevista recente, o prefeito Mabel admitiu que pretende “retirar todas as pessoas em situação de rua das vias públicas de Goiânia até dezembro”. No entanto, não detalhou as estratégias nem os mecanismos para garantir acolhimento digno, emprego, saúde mental e habitação — pilares essenciais para romper o ciclo de exclusão.

Uma política de resultados ou de aparências?

Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que intervenções sem planejamento intersetorial correm o risco de agravar a situação. Para a professora e assistente social Amanda Xavier, da UFG, “ações repressivas disfarçadas de reordenamento urbano mascaram o problema e alimentam ciclos de criminalização da pobreza”.

Dados do Ipea e do IBGE mostram que o número de pessoas em situação de rua cresceu 38% no Brasil desde 2019, impulsionado por desemprego, crise habitacional e insuficiência de políticas públicas. Em Goiânia, estima-se que cerca de 2.400 pessoas vivam nas ruas da capital — número que cresce anualmente, sem que planos estruturantes sejam implementados.

O que diz a Prefeitura

A gestão de Mabel afirma que está executando um plano de reordenamento urbano, com foco em abrigos, parcerias com entidades e programas de requalificação profissional. Contudo, a ausência de diálogo com movimentos sociais e a centralização das ações na Semasdh geram desconfiança entre voluntários e organizações da sociedade civil.

O episódio da Praça Joaquim Lúcio expôs não só uma crise humanitária, mas também a fragilidade institucional de um município que ainda não sabe lidar, com responsabilidade e humanidade, com aqueles que mais precisam.


Atualização em andamento. A reportagem segue acompanhando os desdobramentos na Câmara e junto às entidades sociais para avaliar os efeitos das ações da Prefeitura e da GCM nos próximos dias.

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Marcus

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