Operação Narciso investiga esquema de anabolizantes adulterados com ramificações, em Goiás
Polícia Civil do Distrito Federal aponta fabricação clandestina, distribuição interestadual e uso de estruturas comerciais para dar aparência legal aos produtos
A Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou nesta quarta-feira (12) a Operação Narciso, investigação que mira uma organização suspeita de fabricar, distribuir e comercializar clandestinamente anabolizantes, substâncias controladas e termogênicos adulterados. O esquema, segundo a investigação, teria ramificações em diferentes estados, incluindo Goiás, onde foram identificados pontos utilizados para recebimento de insumos, além de uma farmácia de manipulação e estruturas relacionadas à movimentação financeira do grupo.
A operação foi conduzida pela Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf), da Polícia Civil do Distrito Federal. As medidas judiciais autorizadas pela Justiça incluem mandados de prisão e de busca e apreensão, bloqueio de valores, sequestro de veículos, suspensão de atividades comerciais e retirada de perfis utilizados para divulgação dos produtos.
De acordo com a PCDF, a investigação teve origem a partir da apreensão do celular de um dos investigados apontado como integrante de uma das lideranças do esquema. A análise do conteúdo encontrado no aparelho teria permitido aos investigadores identificar a divisão de tarefas e a existência de diferentes núcleos responsáveis pela produção, fornecimento, comercialização e movimentação dos recursos.
Produção clandestina e sem controle sanitário
Segundo a investigação, parte dos produtos era produzida de maneira artesanal em residências e depósitos improvisados. Entre as substâncias identificadas estão produtos hormonais, diuréticos e estimulantes.
A principal preocupação apontada pelas autoridades está na ausência dos controles normalmente exigidos para a fabricação regular desses produtos. Conforme a PCDF, a produção ocorria sem garantias adequadas de esterilidade, pureza e segurança.
Os investigadores também identificaram uma estratégia para apresentar as mercadorias como produtos legítimos ou importados. Para isso, o grupo utilizaria embalagens, rótulos e identidades visuais que faziam referência a outros países ou reproduziam características de marcas existentes.
A investigação aponta ainda a participação de diferentes fornecedores e prestadores de serviços na cadeia clandestina. Designers teriam produzido materiais gráficos, enquanto uma gráfica seria responsável pela impressão de rótulos e embalagens.
Eventuais responsabilidades individuais de profissionais citados na investigação ainda dependem da apuração e das decisões das autoridades competentes.
Goiás aparece entre os locais investigados
Goiás está entre os estados alcançados pela Operação Narciso. Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal, a investigação identificou depósitos situados na região de divisa com o Distrito Federal utilizados no recebimento de insumos.
Uma farmácia de manipulação também aparece entre os alvos relacionados ao esquema, além de estruturas associadas à movimentação financeira dos investigados.
Até o momento, as informações divulgadas pela PCDF não especificam quais municípios goianos foram alvo das medidas nem apresentam a identidade dos investigados envolvidos nas ações realizadas no estado.
A operação também alcançou João Pessoa, na Paraíba; Foz do Iguaçu, no Paraná; Rio Branco, no Acre; e Uberlândia, em Minas Gerais.
Segundo a investigação, João Pessoa teria abrigado uma estrutura utilizada como laboratório filial, enquanto Foz do Iguaçu seria o ponto de atuação de uma empresa apontada como fornecedora das substâncias distribuídas para outros estados.
Investigação aponta estrutura organizada
A apuração da Polícia Civil indica que o grupo não funcionaria de maneira isolada. Os investigadores identificaram núcleos com funções distintas, incluindo produção, armazenamento, distribuição, divulgação e movimentação de dinheiro.
Entre os elementos investigados estão também receitas que teriam sido utilizadas para viabilizar a aquisição de medicamentos de uso controlado em estabelecimentos agropecuários. A PCDF aponta a possível participação de médicos veterinários nesse mecanismo.
Academias e profissionais ligados ao segmento de treinamento físico também aparecem no levantamento policial como parte da estrutura de divulgação ou recomendação dos produtos.
Essas informações, contudo, integram a linha investigativa da operação e não significam, por si só, que todos os estabelecimentos ou profissionais mencionados tenham responsabilidade criminal. A eventual participação de cada investigado deverá ser individualizada no decorrer da apuração.
Dinheiro teria sido pulverizado em diferentes contas
A investigação financeira identificou, segundo a PCDF, mecanismos destinados a dificultar o rastreamento dos valores obtidos com a comercialização dos produtos.
Entre as estratégias apontadas estão a utilização de contas de terceiros, empresas de fachada, contas de familiares e diferentes chaves Pix. A polícia também identificou movimentações envolvendo plataformas de apostas e jogos de quota fixa, que, conforme a investigação, poderiam ser utilizadas para fragmentar e transferir recursos.
A Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 32 milhões vinculados aos investigados, como parte das medidas de constrição patrimonial adotadas durante a operação.
Justiça autoriza dezenas de medidas
Ao todo, foram autorizados 45 mandados de prisão contra pessoas apontadas pela investigação como integrantes de diferentes níveis da estrutura, além de 50 mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas e jurídicas.
Também foram determinadas medidas patrimoniais e administrativas. Entre elas estão o sequestro de 11 veículos de luxo, o bloqueio de recursos financeiros e a suspensão das atividades, com lacre, de 13 estabelecimentos comerciais e laboratórios de manipulação.
A Justiça autorizou ainda a quebra dos sigilos bancário e telemático dos investigados e determinou o bloqueio e a retirada de 22 perfis em redes sociais que, segundo a investigação, eram utilizados para promover os produtos e captar compradores.
Risco dos produtos clandestinos
Além da possível prática de crimes, a investigação envolve uma questão de saúde pública. Medicamentos e substâncias produzidos clandestinamente não passam necessariamente pelos processos regulares de controle de qualidade e fiscalização sanitária.
No caso de produtos hormonais e estimulantes, a ausência de controle sobre composição e concentração pode representar risco ao consumidor, especialmente quando a embalagem não corresponde ao conteúdo comercializado.
A Operação Narciso busca esclarecer a extensão da organização, identificar a participação individual dos envolvidos e interromper a cadeia de produção e distribuição investigada.
As pessoas e empresas citadas na investigação devem ser tratadas como investigadas até que haja conclusão das autoridades competentes e eventual decisão judicial definitiva. A operação permanece sob condução da Polícia Civil do Distrito Federal.
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