Cigarros eletrônicos ampliam riscos e desafiam políticas públicas no combate ao câncer de pulmão
No Dia Mundial de Combate ao Câncer de Pulmão, especialista alerta para os danos severos causados pelos dispositivos eletrônicos, especialmente entre os jovens; estudos preveem aumento alarmante da doença no Brasil até 2040

Às vésperas do Dia Mundial de Combate ao Câncer de Pulmão, celebrado em 1º de agosto, médicos e pesquisadores intensificam os alertas sobre a ameaça crescente representada pelos cigarros eletrônicos. Considerados por muitos como uma alternativa “mais segura” ao tabagismo tradicional, os chamados vapes e pods vêm se consolidando como um dos principais vetores de risco para o surgimento de doenças pulmonares graves entre adolescentes e jovens adultos, sobretudo no Brasil.
Um estudo publicado pela Fundação do Câncer, com base em projeções da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), estima que os casos de câncer de pulmão no país podem crescer 65% até 2040, enquanto a mortalidade pela doença deve aumentar 74%, caso o atual padrão de consumo de produtos à base de nicotina e derivados do tabaco se mantenha. O cenário preocupa ainda mais diante da banalização do uso dos dispositivos eletrônicos entre faixas etárias cada vez mais jovens.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o tabagismo é responsável por mais de 86% dos casos de câncer de pulmão no Brasil, índice que tende a permanecer elevado com a disseminação dos dispositivos eletrônicos — frequentemente promovidos por estratégias publicitárias que mascaram seus reais efeitos nocivos.
Nova geração, velhos riscos: o apelo dos vapes e os danos silenciosos
A pneumologista Dra. Daniela Campos, especialista em doenças respiratórias, observa com preocupação a adesão crescente de adolescentes e jovens adultos aos cigarros eletrônicos. Atuando no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, ela destaca o caráter enganoso do apelo visual e sensorial desses dispositivos:
“O cigarro eletrônico foi reformulado para atrair o jovem. Não tem o cheiro forte do cigarro tradicional, tem saborizantes artificiais, embalagens atrativas e é vendido como algo inofensivo. Mas os riscos são profundos e, em alguns casos, imediatos”, alerta.
Ela desmente o discurso amplamente difundido de que os vapes podem ser usados como ferramenta terapêutica para o abandono do cigarro convencional:
“Não existe parâmetro clínico seguro para essa substituição. A maioria dos cigarros eletrônicos contém doses desconhecidas de nicotina, e muitos já vêm adulterados com THC, o princípio ativo da maconha. Os usuários, muitas vezes, não sabem o que estão inalando. Não há controle, nem rastreabilidade.”
EVALI e “pulmão de pipoca”: doenças emergentes associadas ao uso de dispositivos eletrônicos
Em 2019, os Estados Unidos enfrentaram uma epidemia de casos graves de EVALI (E-cigarette or Vaping Product Use-Associated Lung Injury) — uma condição aguda e potencialmente letal causada por lesões inflamatórias difusas nos pulmões. Segundo Daniela Campos, a doença foi o prenúncio de um problema respiratório global:
“Pacientes com EVALI internam com sintomas parecidos com pneumonia, mas sem infecção bacteriana ou viral. A estrutura pulmonar sofre um processo de obstrução e inflamação causado pelos aerossóis dos vapes. É como se um material viscoso colasse nas vias aéreas e impedisse a troca gasosa.”
Outro quadro descrito recentemente é a bronquiolite obliterante, conhecida popularmente como “pulmão de pipoca”, uma condição irreversível que leva à obstrução crônica das vias aéreas e perda funcional progressiva da capacidade pulmonar.
Além das doenças pulmonares, há indícios crescentes de que o uso regular de cigarros eletrônicos está associado a cânceres de boca, laringe, infarto, acidente vascular cerebral e distúrbios neurológicos, conforme estudos clínicos conduzidos nos Estados Unidos e na Europa.
Nicotina, chumbo, amônia e propilenoglicol: o coquetel invisível
Mesmo as versões ditas “sem nicotina” não são isentas de riscos. A composição das essências e líquidos usados nos dispositivos eletrônicos inclui substâncias tóxicas como amônia, chumbo, metais pesados e propilenoglicol — esta última capaz de desencadear inflamações severas nas vias aéreas e reações alérgicas.
“A toxicidade não vem só da nicotina. Muitos desses compostos são altamente cancerígenos. Mesmo quem não faz uso direto do cigarro eletrônico, mas convive com usuários e inala as emissões, pode desenvolver doenças respiratórias graves, como asma e enfisema”, afirma Campos.
Regulamentar ou proibir? O debate no Congresso e a posição da comunidade médica
Apesar de pressões da indústria e de setores ligados ao comércio, projetos de lei que visam regulamentar o comércio de cigarros eletrônicos tramitam no Congresso Nacional, dividindo opiniões. Para entidades médicas, a legalização dos vapes representaria um erro sanitário de proporções semelhantes às que vêm sendo enfrentadas por países que liberaram o produto.
“O Reino Unido e os EUA, que permitiram a comercialização ampla, agora enfrentam surtos de doenças pulmonares em adolescentes, internações prolongadas e colapso de leitos hospitalares. Não podemos repetir esse erro. A Sociedade Brasileira de Pneumologia, assim como a Sociedade Goiana, se posiciona de forma veemente contra a legalização”, reforça a médica.
A banalização do uso de cigarros eletrônicos, especialmente entre jovens, representa um desafio urgente para a saúde pública brasileira. Mais do que um modismo, os vapes carregam um potencial destrutivo semelhante — ou até superior — ao cigarro convencional, com a agravante da falsa sensação de segurança. Diante de projeções alarmantes sobre o crescimento do câncer de pulmão e da falta de regulação eficaz, o alerta da comunidade científica não pode mais ser ignorado.
A resposta a essa crise sanitária emergente exigirá decisão política firme, comunicação pública clara e uma vigilância regulatória ativa — antes que a próxima geração pague o preço de nossa omissão.
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