Caixa reduz presença física em Goiânia e aprofunda debate sobre acesso bancário e papel social do Estado
Fechamento de agências na capital reflete avanço da digitalização no sistema financeiro, mas reacende alertas sobre exclusão social, impacto econômico local e atendimento a públicos vulneráveis

A Caixa Econômica Federal intensificou o processo de reestruturação de sua rede física e encerrou recentemente unidades em Goiânia, acompanhando um movimento nacional de redução de agências bancárias impulsionado pela digitalização dos serviços financeiros. Na capital goiana, tiveram as atividades encerradas agências nos setores Parque Amazônia, Jardim Novo Mundo e Pedro Ludovico, além de um posto de atendimento bancário instalado na Câmara Municipal.
O redimensionamento da presença física da Caixa ocorre em sintonia com uma tendência já consolidada entre bancos privados, marcada pelo crescimento acelerado dos canais digitais, automação de processos e uso de inteligência artificial. Entre 2024 e 2025, a instituição fechou 163 unidades em todo o país. Desde 2017, o número de agências desativadas pela Caixa já se aproxima de 200, segundo dados sindicais. No mesmo período, o sistema bancário brasileiro encerrou 7.252 agências, conforme registros do Banco Central.
Embora o movimento seja defendido pelas instituições financeiras como uma modernização necessária para reduzir custos e ampliar eficiência operacional, entidades representativas dos trabalhadores e especialistas em economia social apontam efeitos colaterais relevantes. A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) avalia que a retração territorial da Caixa afeta diretamente populações mais vulneráveis, sobretudo em um banco que exerce função estratégica na execução de políticas públicas federais.
A Caixa é responsável pela operacionalização de programas como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), FGTS, abono salarial, Pronaf e políticas habitacionais, serviços que, em muitos casos, ainda exigem atendimento presencial. Em regiões periféricas, áreas rurais e municípios menores, a agência da Caixa frequentemente representa o único ponto de acesso ao sistema bancário e a direitos sociais básicos.
Para o coordenador da Comissão Executiva dos Empregados da Caixa, Felipe Pacheco, o fechamento de unidades vai além da lógica empresarial. “Cada agência encerrada representa uma diminuição concreta da presença do Estado na vida de quem mais precisa. A Caixa cumpre uma função pública que não pode ser analisada apenas sob critérios de rentabilidade”, afirma. Segundo ele, o impacto também se estende ao comércio local, à circulação econômica dos bairros e à oferta de serviços, gerando efeitos indiretos sobre emprego e renda.
Em Goiás, o Sindicato dos Bancários acompanha o processo e afirma que, até o momento, não houve demissões decorrentes do fechamento das unidades. De acordo com o diretor de Relações Sindicais, Willian Louzada, os trabalhadores foram realocados para outras agências ou migraram para estruturas de atendimento remoto, mantendo cargos e vínculos. Ele destaca ainda que, no estado, não houve encerramento de agências em municípios com apenas uma unidade de atendimento.
A reorganização, no entanto, não elimina as preocupações com o acesso da população aos serviços bancários. A vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás, Alessandra Campos Pereira, avalia que a digitalização representa um avanço operacional, mas impõe desafios sociais relevantes. “Para parte significativa da população, especialmente idosos e pessoas de baixa renda, o atendimento digital ainda é uma barreira. Nem todos têm acesso à internet, equipamentos adequados ou familiaridade com aplicativos”, observa.
Segundo a economista, a transição tecnológica no setor financeiro precisa ser acompanhada de políticas públicas de inclusão digital e estratégias que preservem o atendimento presencial em situações essenciais. Caso contrário, a modernização tende a ampliar desigualdades já existentes.
Em nota, a Caixa informou que mantém em Goiás uma rede composta por 168 agências e postos de atendimento, além de 532 casas lotéricas e 399 correspondentes Caixa Aqui. Em Goiânia, são 42 agências e postos, 116 lotéricas e 91 correspondentes. A instituição afirma que essa capilaridade garante o acesso da população aos serviços bancários e que a revisão da rede física faz parte de avaliações permanentes de eficiência e demanda.
O banco reforça que a maior parte das transações já ocorre por meios digitais, mas sustenta o compromisso de manter atendimento presencial onde ele for considerado essencial. O debate, no entanto, permanece aberto entre eficiência operacional, responsabilidade social e o papel da Caixa como instrumento de políticas públicas em um país marcado por profundas desigualdades de acesso.
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