Inteligência Artificial vai acelerar doação de córneas e reduzir fila de transplantes, em Goiás
Ferramenta inédita será integrada aos hospitais estaduais para identificar óbitos em tempo real, agilizar a abordagem às famílias e ampliar a captação de córneas. Projeto recebe investimento de R$ 1,2 milhão e começa a ser implantado neste segundo semestre.

A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) iniciou a implantação de uma solução baseada em inteligência artificial para tornar mais ágil o processo de identificação de potenciais doadores de córneas. A tecnologia permitirá que notificações de óbitos ocorridos em hospitais estaduais sejam enviadas automaticamente e em tempo real à Central Estadual de Transplantes, reduzindo perdas provocadas pelo curto intervalo disponível para a captação do tecido ocular.
A iniciativa foi desenvolvida dentro do programa GovTech, voltado à inovação na administração pública, e busca enfrentar um dos principais desafios da política estadual de transplantes: a subnotificação de óbitos por parada cardiorrespiratória. Diferentemente da maioria dos órgãos sólidos, cuja doação depende da confirmação de morte encefálica, as córneas podem ser doadas após parada cardíaca, desde que respeitados critérios técnicos e prazos rigorosos estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes.
Segundo a gerente da Central Estadual de Transplantes, Katiuscia Christiane Freitas, a demora na comunicação dos óbitos faz com que muitas oportunidades de doação sejam perdidas antes mesmo que as equipes consigam localizar e orientar os familiares sobre a possibilidade da doação. Em muitos casos, quando a informação chega à Organização de Procura de Órgãos (OPO), o prazo para captação já expirou ou o corpo foi liberado.
A expectativa é que a nova plataforma reduza drasticamente esse intervalo, permitindo que os alertas sejam emitidos ainda na primeira hora após o registro do óbito. Com isso, as equipes especializadas poderão iniciar rapidamente os protocolos assistenciais, realizar a entrevista familiar e avaliar a viabilidade da captação dentro do tempo recomendado.
O projeto prevê a integração da inteligência artificial aos prontuários eletrônicos já utilizados pelos hospitais estaduais. A ferramenta fará o monitoramento automatizado dos registros clínicos e identificará eventos compatíveis com potenciais doadores, encaminhando imediatamente as informações às equipes responsáveis, sem necessidade de comunicação manual.
Na fase inicial, a tecnologia será implantada como projeto-piloto em três das maiores unidades de urgência da rede estadual: o Hospital de Urgências de Goiás (Hugo), o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) e o Hospital Estadual de Anápolis Dr. Henrique Santillo (Heana). A startup selecionada terá prazo de um ano para desenvolver, validar e demonstrar os resultados da solução antes de sua possível expansão para outras unidades hospitalares.
O investimento previsto é de R$ 1,2 milhão, financiado por meio da parceria entre a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-GO), a Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) e o Hub Goiás. A assinatura do contrato está prevista para este mês, com início da operação em agosto.
A medida representa um avanço estratégico para a política estadual de transplantes. Atualmente, aproximadamente 1.900 pacientes aguardam por um transplante de córnea em Goiás, uma das maiores filas do Estado. A meta da Central Estadual de Transplantes é reduzir significativamente o tempo de espera, aproximando-o do parâmetro nacional, que busca garantir o procedimento em até 60 dias para os pacientes aptos.
Especialistas destacam que a adoção de inteligência artificial não substitui a autorização da família nem os critérios clínicos exigidos para a doação, mas amplia a eficiência operacional do sistema, evitando que potenciais doadores deixem de ser identificados por falhas ou atrasos na comunicação hospitalar. A expectativa é que a inovação fortaleça a rede estadual de transplantes, aumente a disponibilidade de córneas e permita que um número maior de pacientes recupere a visão por meio do SUS.


