Prefeitura de Goiânia acumula R$ 8,8 milhões em dívidas com fornecedores da Saúde e impasse expõe risco à assistência
Levantamento no Portal da Transparência aponta 128 empresas com valores a receber da Secretaria Municipal de Saúde; parte delas foi multada por atrasos enquanto alega inadimplência do município.

A Prefeitura de Goiânia mantém R$ 8,8 milhões em pagamentos pendentes a fornecedores de medicamentos e insumos da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), segundo apuração baseada em dados oficiais do Portal da Transparência. O montante envolve 128 empresas contratadas entre 2021 e 2025 e resulta da diferença entre valores liquidados — quando o município reconhece a obrigação — e os efetivamente pagos.
O cenário ganhou contornos mais complexos após a publicação, no Diário Oficial do Município (DOM), de multas administrativas contra fornecedores por atraso ou não entrega de produtos. Seis dessas empresas multadas figuram entre as credoras da própria Prefeitura, o que evidencia um conflito contratual: enquanto a gestão cobra cumprimento de prazos, fornecedores afirmam que suspenderam entregas por falta de pagamento.
As empresas Costa Camargo Comércio de Produtos Hospitalares, Objetiva Produtos e Serviços para Laboratórios, Destra Distribuidora de Medicamentos, JR Lacerda Material Médico-Hospitalar, Científica Médica Hospitalar e Sulmedic Comércio de Medicamentos somam R$ 1,074 milhão a receber e R$ 646,9 mil em multas. Se houvesse compensação entre débitos e penalidades, restariam R$ 427,3 mil, uma redução aproximada de 60% do passivo específico desse grupo — hipótese que, contudo, depende de análise jurídica e administrativa.
A SMS informou que, ao assumir a gestão em 2025, encontrou um passivo de R$ 504 milhões envolvendo fornecedores, prestadores de serviços, repasses a credenciados e obrigações patronais. Segundo a pasta, R$ 276,1 milhões foram pagos no ano passado. A secretaria sustenta que renegociações e cronogramas de pagamento ocorrem caso a caso e afirma que, em 2025, o investimento na saúde municipal alcançou R$ 800 milhões, com regularidade nos pagamentos dos contratos firmados já na atual gestão.
Paralelamente, a aplicação de penalidades cresceu. Em coletiva recente, o secretário Luiz Pellizzer declarou que 1,8 milhão de itens não chegaram às unidades de saúde, sendo 1.564.700 medicamentos e 227.180 insumos. Entre os produtos citados estão clorpromazina, biperideno, heparina, omeprazol e ibuprofeno, além de materiais básicos como luvas, soro e seringas. Os contratos derivam de pregões eletrônicos homologados entre 2020 e 2025. Até o dia 22, as multas somavam R$ 345,8 mil; após novas publicações no DOM, o total alcançou R$ 1,2 milhão, com penalidades adicionais a empresas como Destra, Científica, Maxlab, Ciamed e Cimed.
Entre as respostas, a Objetiva atribuiu a suspensão das entregas à inadimplência da gestão anterior, enquanto a Sulmedic informou que não voltará a se manifestar. As demais não responderam até o fechamento. No início do mandato, em janeiro de 2025, o prefeito Sandro Mabel (UB) suspendeu pagamentos herdados da administração anterior e anunciou um ajuste fiscal, que incluiu corte linear de 30% nas despesas das pastas para direcionar recursos a investimentos — medida que, agora, é observada com atenção pelo impacto potencial na cadeia de suprimentos da saúde.
O impasse revela um desafio de governança: equilibrar a recomposição fiscal, a segurança jurídica dos contratos e a continuidade do abastecimento de medicamentos e insumos essenciais à população, sem transferir riscos ao atendimento nas unidades da capital.

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