Cemitérios públicos de Goiânia enfrentam abandono crônico e descaso do poder público
Mesmo com promessas da Prefeitura, estrutura dos cemitérios segue comprometida: mato alto, falta d’água, ossadas expostas e obras inacabadas marcam o cenário nos quatro espaços municipais. Ministério Público cobra medidas desde 2008.

Os quatro cemitérios públicos de Goiânia seguem mergulhados em uma rotina de precariedade e abandono, apesar das promessas recentes da atual gestão municipal. Desde março, a situação pouco evoluiu, com problemas estruturais, sanitários e administrativos agravando a dignidade dos espaços destinados ao luto e à memória. O cenário inclui desde túmulos abertos com ossadas expostas até ausência de água potável e vidros estilhaçados nas salas de velório.
No Cemitério Parque, localizado no Setor Urias Magalhães, a construção do muro, iniciada em 2022, está paralisada há quase dois anos. O abandono da obra é visível: materiais de construção jogados às margens do terreno e trechos do muro deixados inacabados. A Secretaria Municipal de Gestão de Negócios e Parcerias (Segenp) afirma estar em tratativas com a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) para a retomada da intervenção, mas não há prazos definidos.
No Cemitério Vale da Paz, situado às margens da GO-020, o retrato da negligência se repete — ou se agrava. A vegetação alta cobre nomes de sepultados e dificulta a circulação. Os banheiros estão em condições precárias, com mictórios interditados com sacos plásticos, rachaduras nos bancos de concreto, portas danificadas, e infiltrações visíveis. A pintura externa está descascada. A situação mais grave, no entanto, é a recorrente falta de água. Segundo funcionários, a bomba d’água queima com frequência e não há abastecimento alternativo. Nem mesmo água potável é oferecida. Profissionais e familiares precisam levar sua própria água.
Omissões e responsabilização
Além da evidente degradação nas estruturas físicas — como portas quebradas, vidros danificados e infiltrações — há uma inação estrutural do poder público. Mesmo com o Decreto Municipal nº 2.944/2019 atribuindo aos concessionários a responsabilidade pela conservação dos jazigos, compete à Prefeitura garantir a infraestrutura básica das unidades, o que não vem sendo cumprido de forma adequada.
No início de agosto, a Prefeitura publicou no Diário Oficial do Município a notificação de 77 proprietários de túmulos em situação de abandono nos cemitérios Parque e Santana. Eles têm 90 dias para realizar os reparos, sob pena de perder o direito de concessão. Apesar da medida, muitos dos problemas estruturais relatados nos cemitérios — especialmente os que dizem respeito a banheiros, salas de velório e segurança — são de responsabilidade direta da administração municipal.
Promessas e ações insuficientes
O secretário da Segenp, José Silva Soares Neto, reconhece as deficiências históricas nos cemitérios públicos e afirma que a atual gestão elaborou um plano de reestruturação, com vistorias técnicas, roçagens e parcerias em andamento. Ele admite, no entanto, que os resultados ainda estão distantes das expectativas. “A gente vai transformar os cemitérios em espaços dignos e preservados. Até o fim da gestão, as melhorias estarão implantadas. Durante o processo, a população já começará a sentir a diferença”, declarou.
A Comurg informou que uma nova frente de zeladoria está sendo executada, com roçagem, limpeza, remoção de entulhos e pintura de meio-fio. Segundo a companhia, a força-tarefa mais recente em todos os cemitérios havia ocorrido em maio. Atualmente, os serviços estão concentrados nos cemitérios Parque e Santana; posteriormente, as equipes devem atender os cemitérios Jardim da Saudade (próximo à GO-060) e Vale da Paz.
Ação do Ministério Público
Desde 2008, uma Ação Civil Pública do Ministério Público de Goiás (MP-GO) cobra melhorias nos cemitérios municipais, apontando falhas históricas e estruturais. A atual gestão diz estar em diálogo com o órgão ministerial para consolidar um plano definitivo de reforma e modernização até o fim do mandato do prefeito Sandro Mabel (União Brasil).
Reflexo do abandono
A situação nos cemitérios municipais de Goiânia ultrapassa a falta de manutenção: representa um desrespeito à memória dos mortos e ao sofrimento das famílias que, além da dor da perda, enfrentam estruturas deterioradas e insalubres para velar e sepultar seus entes queridos. O descaso não é pontual — é sistêmico, recorrente e cobrado há mais de uma década por órgãos de controle.
Até que as medidas anunciadas se concretizem, os cemitérios públicos da capital goiana continuarão a ser retrato de um luto que, além de íntimo, passa a ser coletivo — pela ausência de dignidade, cuidado e respeito nos espaços onde deveria haver serenidade e memória.
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