População em situação de rua em Goiânia segue circulando para evitar abordagens e enfrenta violência e vulnerabilidade
Intervenções da Prefeitura deslocam moradores, mas problemas estruturais persistem; especialistas alertam para necessidade de políticas de habitação efetivas

A população em situação de rua em Goiânia continua a viver em um ciclo de deslocamento e vulnerabilidade, enquanto ações da Prefeitura de Goiânia visam ordenar os espaços urbanos historicamente ocupados. Apesar das promessas da gestão municipal de erradicar a população em situação de rua até o fim de 2025, as medidas adotadas resultaram principalmente no deslocamento dessas pessoas para áreas periféricas, mais inseguras, sem oferecer soluções estruturais de acolhimento e proteção social.
Desocupações e deslocamentos
Desde o início da gestão do prefeito Sandro Mabel (UB), intervenções em praças e espaços públicos foram a estratégia predominante. A Praça Joaquim Lúcio, em Campinas, e a Praça Carlos Freitas, no Centro, foram alguns dos locais mais afetados. A movimentação provocou a migração dos moradores para regiões próximas, como o Parque Campininha das Flores, a margem do Córrego Cascavel, e áreas sob pontes e imóveis abandonados. Relatos de moradores indicam que essas mudanças aumentaram os riscos de violência, exposição ao frio e à umidade, e dificuldades de acesso à alimentação e à saúde.
Mulheres em situação de rua relataram episódios de assédio e estupro em residências abandonadas, enquanto homens enfrentam maior exposição a agressões. Em setembro de 2025, reportagem do POPULAR constatou que pessoas que saíram da Praça Joaquim Lúcio acabaram dormindo sob torres de energia elétrica ou à beira do córrego, evidenciando o aumento da vulnerabilidade.
Segundo a Secretaria Municipal de Eficiência (Sefic), ao longo de 2025 foram 34 demolições de estruturas irregulares — conhecidas como “mocós” — além de operações contínuas de fiscalização, com média de duas demolições por semana. A pasta classificou a estratégia como “ordenamento urbano”, afirmando que o objetivo é reduzir os danos causados pela condição de rua. Especialistas, porém, apontam que tais medidas apenas deslocam a população, sem oferecer soluções permanentes de moradia ou inserção social.
Dados e registros oficiais
A Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) informa que cerca de 3 mil pessoas teriam saído das ruas de Goiânia desde o início de 2025, com base no Sistema Unificado de Proteção Social (Sups) e no CadÚnico. Atualmente, os registros indicam que a maior parte da população em situação de rua é composta por homens, incluindo um contingente significativo de jovens.
No entanto, especialistas questionam a precisão desses números. Fernando da Silva Oliveira, do Núcleo de Estudos e Pesquisa Sobre Criminalidade e Violência (Necrivi/UFG), afirma que muitas pessoas não aparecem nos cadastros devido à falta de documentação ou à própria mobilidade urbana. “Um censo amplo é necessário para compreender o real tamanho e perfil dessa população e orientar políticas públicas eficazes”, destaca.
Coordenadores de organizações sociais de distribuição de alimentos também contestam os dados oficiais, relatando que o número de marmitas e refeições distribuídas não diminuiu, indicando que a população em situação de rua pode ser maior do que os registros municipais apontam.
Políticas públicas e perspectivas para 2026
A Prefeitura anunciou a ampliação das vagas de acolhimento em casas de passagem, com a criação de mais 50 vagas em 2026, e a implementação de programas de redução de danos, aluguel social e parcerias com organizações da sociedade civil (OSCs). Essas medidas buscam oferecer proteção mínima, acompanhamento social e alternativas graduais de saída das ruas.
Erizania Freitas, secretária da Semasdh, explica que a política de “saída gradual das ruas” visa não apenas deslocar os indivíduos, mas reduzir os riscos associados à vida em situação de rua e criar perspectivas de reinserção social. “Onde quer que a pessoa esteja, precisamos reduzir os danos e oferecer alternativas que permitam retomar a vida em condições dignas”, afirma.
O prefeito Sandro Mabel destacou que atualmente são cerca de 900 pessoas nessa condição, mas reconheceu a necessidade de fortalecer o sistema de assistência e aumentar o acesso a vagas de acolhimento. A Prefeitura também pretende ampliar o número de vans de abordagem social, garantindo presença contínua de equipes de assistência na cidade.
Especialistas afirmam que, para além do ordenamento urbano, é fundamental implementar políticas de moradia estruturadas, como o modelo “Housing First” (“Moradia Primeiro”), que garante acesso a moradia estável antes de intervenções sociais adicionais. Segundo Fernando da Silva Oliveira, esse tipo de abordagem é a mais eficaz para reduzir permanentemente a população em situação de rua e integrar indivíduos à rede de serviços de saúde, educação e assistência.
Desafios persistentes
Apesar dos avanços, o cotidiano da população em situação de rua em Goiânia continua marcado por insegurança, violência, exposição e falta de serviços públicos. As estratégias de deslocamento não substituem a necessidade de políticas estruturais de habitação e proteção social. A realização de um censo municipal ainda em 2026 é apontada como fundamental para dimensionar o problema, planejar intervenções mais eficazes e reduzir a vulnerabilidade dessa população.
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