Entregadores de Aplicativos Anunciam Paralisação Nacional por Direitos e Melhor Remuneração
Mobilização busca reajuste de tarifas, segurança no trânsito e regulamentação do trabalho por aplicativos

Entregadores de aplicativos em todo o Brasil convocaram uma paralisação nacional nos dias 31 de março e 1º de abril de 2025, exigindo melhores condições de trabalho e remuneração justa. O movimento, liderado pelo Breque Nacional dos Apps e pela ANEA (Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativos), já conta com adesão em 20 estados e promete impactar as operações de gigantes do setor, como iFood, Rappi e Uber Eats.
Os organizadores pedem apoio da população, solicitando que os consumidores não utilizem os serviços de entrega nesses dias como forma de fortalecer a causa.
Reivindicações dos Entregadores
A categoria denuncia valores defasados e condições precárias, que tornam a rotina dos entregadores cada vez mais exaustiva e perigosa. Entre as principais pautas da paralisação, destacam-se:
Aumento da tarifa mínima de entrega de R$ 6,50 para R$ 10,00;
Reajuste do valor por quilômetro rodado de R$ 1,50 para R$ 2,50;
Limitação da distância máxima para entregadores de bicicleta a 3 km;
Pagamento integral por pedidos agrupados, sem descontos para os trabalhadores;
Seguro de vida amplo e sem restrições, válido mesmo fora do momento exato da entrega.
“Hoje, os entregadores enfrentam jornadas exaustivas e arriscadas, sem nenhuma proteção ou segurança financeira. Se sofremos um acidente, ficamos abandonados pelas plataformas”, afirma Rodrigo Souza, membro do Breque Nacional dos Apps.
Crise na Segurança: Aumento de Mortes no Trânsito
O movimento também chama a atenção para a crescente violência no trânsito, que atinge de forma alarmante os entregadores. Apenas em fevereiro de 2025, 31 motociclistas morreram em São Paulo, o maior número para o mês desde 2015. Em 2024, foram 2.626 mortes no estado de São Paulo, sendo que mais de 60% das vítimas eram entregadores.
“O modelo atual incentiva entregadores a correrem riscos para cumprir mais entregas em menos tempo. As plataformas precisam assumir responsabilidade sobre a segurança desses trabalhadores”, critica Lucio Almeida, presidente do Centro de Defesa das Vítimas de Trânsito.
Almeida também alerta para a urgência de um seguro obrigatório para entregadores, já que os existentes cobrem apenas acidentes ocorridos durante entregas em andamento, deixando os trabalhadores vulneráveis no restante do tempo.
Regulamentação e Debate Político
A paralisação também reacende o debate sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos no Brasil. Diferente de países como Espanha e Reino Unido, onde as empresas foram obrigadas a formalizar parte da categoria, no Brasil os entregadores seguem sem vínculos empregatícios e sem direitos trabalhistas garantidos.
A extinção do DPVAT (Seguro Obrigatório de Acidentes de Trânsito) em 2020 agravou a situação, deixando milhares de vítimas de acidentes sem amparo. Em 2023, o governo federal propôs o SPVAT (Seguro Obrigatório para Proteção de Vítimas de Acidentes de Trânsito), mas o projeto foi revogado em dezembro de 2024, sem uma alternativa para os trabalhadores.
“Hoje, os entregadores estão literalmente pagando com a própria vida para manter esse modelo de trabalho. Precisamos de mudanças urgentes”, reforça Paulo Gouveia, especialista em mobilidade urbana.
Expectativa para a Paralisação
A greve nacional dos entregadores promete ser a maior mobilização da categoria desde 2020, quando um movimento semelhante paralisou aplicativos de entrega em todo o país. Com o aumento da insatisfação e da precarização do trabalho, a adesão ao protesto pode superar todas as expectativas.
“Sem entregadores, não há entrega”, dizem os organizadores do Breque Nacional.
Agora, resta saber se as empresas de aplicativos vão ceder às exigências ou manter o atual modelo, ignorando os alertas de uma crise que já afeta milhares de trabalhadores.