Capital registra 3,6 mil autuações em seis meses por estacionamento irregular
Especialistas apontam déficit estrutural e políticas públicas insuficientes para ciclistas.

O desrespeito de motoristas às ciclofaixas e ciclovias em Goiânia permanece como um dos principais entraves para a segurança e a consolidação da bicicleta como meio de transporte urbano. Dados da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET) mostram que apenas no primeiro semestre deste ano foram aplicadas 3.591 multas por estacionamento irregular nesses espaços exclusivos, o equivalente a quase 600 infrações por mês. A conduta é considerada infração grave, passível de multa de R$ 195, cinco pontos na carteira de habilitação e, em alguns casos, remoção do veículo.
Apesar das penalidades, a prática segue recorrente. Nos arredores dos parques Vaca Brava e Areião, na Região Sul da capital, as ciclofaixas implantadas em 2015 deveriam garantir a circulação exclusiva de bicicletas aos domingos e feriados, entre 7h e 18h. Entretanto, flagras de veículos estacionados irregularmente continuam a ser rotina nesses locais, revelando a dificuldade de transformar a bicicleta em alternativa viável de deslocamento cotidiano.
Segundo o diretor de trânsito da SET, Luís Tiago Santos, a fiscalização é constante e tem resultado inclusive na remoção de veículos por guincho. “Pedimos aos motoristas que respeitem as ciclofaixas. Trata-se de um modal importante, que atende cada vez mais pessoas. A fiscalização seguirá e quem insistir será punido com rigor”, afirmou.
Gargalos estruturais
Para especialistas em mobilidade urbana, o problema não se resume ao desrespeito dos motoristas. Há uma questão estrutural mais profunda: a falta de infraestrutura cicloviária contínua e segura.
O engenheiro de transportes Matheus Duarte, do Fórum Mova-Se, avalia que o déficit de malha cicloviária desestimula a adoção da bicicleta. “O ciclista avalia riscos, distâncias e a viabilidade do trajeto. Sem uma rede adequada e conectada, pedalar em meio ao tráfego intenso torna-se arriscado. Isso compromete a escolha da bicicleta como meio de transporte diário”, observa.
A professora e pesquisadora em transportes da Universidade Federal de Goiás (UFG), Erika Cristine Kneib, reforça a crítica. Para ela, Goiânia segue priorizando a fluidez de veículos motorizados, em detrimento da segurança de pedestres e ciclistas. “Além da fiscalização, é essencial reduzir os limites de velocidade e ampliar a rede cicloviária. A cidade tem grande potencial para expandir o uso da bicicleta, mas carece de políticas públicas consistentes que viabilizem essa mudança”, analisa.
Potencial e desafio
Apesar das dificuldades, especialistas destacam que a topografia relativamente favorável e a crescente adesão a meios de transporte sustentáveis indicam que Goiânia poderia se tornar referência em mobilidade ativa. Para isso, no entanto, seria necessário um plano de expansão da malha cicloviária aliado a políticas de incentivo ao uso da bicicleta, como estacionamentos seguros e integração com o transporte coletivo.
Enquanto tais medidas não são implementadas, a cena que se repete aos domingos nos parques da capital evidencia a contradição: motoristas ocupando os espaços destinados às bicicletas, e ciclistas disputando com carros e ônibus um lugar em vias pouco preparadas para acolhê-los com segurança.
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