Arena Goiás funciona sob embargo e expõe crise de autoridade do Iphan, em Goiás
Evento do MotoGP ocupa a Praça Cívica apesar de determinação formal do órgão federal, enquanto críticas recaem sobre a condução do superintendente regional

A abertura da Arena Goiás na Praça Cívica, mesmo após embargo imposto pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, consolidou um impasse institucional que vai além da realização de um evento cultural. A estrutura, vinculada à programação do MotoGP, começou a receber público com shows, feira gastronômica e transmissões em telões, desconsiderando uma decisão administrativa que, em tese, deveria ter efeito imediato.
O episódio trouxe à tona críticas diretas à atuação do superintendente do órgão em Goiás, Gilvane Felipe, cuja condução do caso passou a ser questionada por agentes públicos, especialistas e até ex-dirigentes da própria autarquia. Embora o Iphan tenha formalizado o embargo, comunicado o descumprimento e acionado o Ministério Público Federal, não houve capacidade operacional para impedir a continuidade do evento — o que, na prática, esvaziou o peso da decisão.
Para o ex-superintendente do instituto em Goiás, Allyson Cabral, a postura atual do órgão levanta dúvidas sobre critérios técnicos e consistência institucional. Ele critica a tentativa de barrar o evento e sugere que a medida destoa de precedentes recentes. Segundo Cabral, manifestações de grande porte já ocuparam o mesmo espaço sem resistência semelhante, o que, na avaliação dele, fragiliza a coerência das decisões.
A crítica ganha força diante da ausência de evidências de risco estrutural imediato ao conjunto arquitetônico tombado. O argumento técnico utilizado para justificar o embargo — possível impacto sobre edificações em estilo Art Déco — é contestado por especialistas, que apontam que eventos temporários, quando monitorados, tendem a gerar apenas impactos reversíveis.
Enquanto o embate institucional se intensifica, o Governo de Goiás sustenta que a montagem da arena segue parâmetros técnicos, com adoção de medidas de proteção, como isolamento de áreas sensíveis, controle de circulação e acompanhamento por equipes especializadas. A gestão estadual afirma ainda ter buscado diálogo com o Iphan, sem avanço prático.
A Arena Goiás foi estruturada como um polo de integração entre esporte e cultura, reunindo mais de 390 metros de painéis de LED, apresentações musicais de artistas locais e nacionais, feira de artesanato e espaços voltados à economia criativa. O evento também mobiliza setores produtivos, como gastronomia e turismo, que defendem a ocupação qualificada da área central como estratégia de valorização urbana.
Entidades representativas destacam o impacto econômico e simbólico da iniciativa. Para empresários e artesãos, a utilização da Praça Cívica fortalece a conexão da população com o patrimônio histórico, ao mesmo tempo em que amplia oportunidades de renda e visibilidade.
Ainda assim, o caso evidencia um problema estrutural: a dificuldade do Iphan em Goiás de equilibrar sua função regulatória com a realidade de grandes eventos públicos. A ausência de medidas efetivas para fazer cumprir o embargo coloca em xeque não apenas a atuação do órgão, mas a própria credibilidade dos instrumentos de proteção do patrimônio cultural.
O episódio deixa como legado um questionamento central: quando uma decisão técnica não se sustenta na prática, o problema está no contexto político ou na fragilidade institucional de quem deveria garanti-la.
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