Síndico de Caldas Novas é indiciado por suspeita de usar mais de R$ 106 mil do condomínio em benefício próprio

Polícia Civil aponta gastos com combustíveis, veículos, telefones, escrituras e até defesa jurídica; filho do síndico também foi indiciado
Cleber Rosa confessou que matou a corretora de imóveis e indicou o local onde abandonou o corpo dela (Wildes Barbosa/O POPULAR e Reprodução/Instagram de Daiane Alves de Souza)

A Polícia Civil de Goiás indiciou novamente o síndico Cléber Rosa de Oliveira, investigado pela morte da corretora de imóveis Daiane Alves Souza, em Caldas Novas, no sul de Goiás. Desta vez, a apuração envolve suspeitas de uso irregular de recursos da associação de moradores do condomínio onde ele exercia a função. Segundo documentos da investigação, o prejuízo atribuído à gestão ultrapassa R$ 106,4 mil, com despesas que, de acordo com os investigadores, teriam sido direcionadas a interesses particulares. O filho dele, Maicon Douglas, também foi indiciado no procedimento patrimonial.

A nova investigação surgiu a partir da análise das movimentações financeiras da associação e de uma auditoria contratada pela atual administração. Entre os gastos considerados suspeitos estão R$ 25,2 mil em postos de combustíveis, R$ 4,4 mil em manutenção de veículos, R$ 3 mil em planos telefônicos e R$ 28,1 mil relacionados ao pagamento de escrituras de imóveis. Segundo a Polícia Civil, a associação de moradores não possuía veículo próprio, o que levantou questionamentos sobre parte das despesas.

Investigação encontrou diferentes tipos de despesas

O inquérito não se limita a uma única transferência. A Polícia Civil identificou uma série de operações realizadas durante o período em que Cléber estava à frente da administração do condomínio.

Entre os pontos analisados estão gastos em estabelecimentos de combustíveis que, conforme o documento investigativo, alcançaram R$ 25,2 mil. Também foram identificados R$ 4,4 mil em manutenção de veículos, apesar de, segundo os investigadores, a associação não possuir automóveis próprios que justificassem essas despesas.

A apuração também apontou pagamentos relacionados a planos telefônicos entre 2023 e 2025, no valor de R$ 3 mil, além de R$ 28,1 mil empregados no pagamento de escrituras de imóveis.

Outro episódio investigado envolve a locação de um apartamento. Segundo o documento policial, Cléber teria alugado uma unidade para terceiros apresentando-se como proprietário do imóvel e recebido dois meses de aluguel, totalizando R$ 2,6 mil. A investigação considera esse episódio parte do conjunto de movimentações que teriam causado prejuízo à associação.

Os valores ainda são objeto de apuração dentro do procedimento policial. O indiciamento representa a conclusão da autoridade policial sobre a existência de elementos que, na avaliação da investigação, apontam para a prática de crimes, mas não equivale a condenação judicial.

Recursos teriam sido usados para pagar defesa jurídica

Um dos pontos mais sensíveis da investigação envolve o pagamento da defesa jurídica de Cléber no processo relacionado à morte de Daiane.

De acordo com a Polícia Civil, R$ 18 mil dos recursos da associação teriam sido utilizados para pagar o escritório de advocacia que atuou na defesa inicial do síndico. A investigação aponta que o dinheiro teria sido transferido primeiro para a conta do filho, Maicon Douglas, e posteriormente encaminhado ao escritório.

Esse episódio já havia sido identificado durante a apuração do homicídio. Em fevereiro, a Polícia Civil informou que encontrou no celular de Cléber um contrato de honorários datado de 17 de janeiro e verificou uma transferência bancária de valor correspondente. O presidente da associação havia registrado ocorrência após identificar a movimentação.

Na ocasião, a Polícia Civil explicou que não analisou o conteúdo protegido pela relação entre advogado e cliente. O que chamou a atenção dos investigadores foi a correspondência entre o valor indicado no contrato e a transferência identificada na conta da associação. A suspeita passou então a ser investigada em procedimento próprio.

Filho também foi indiciado

Maicon Douglas também passou a responder ao indiciamento no procedimento que apura as movimentações financeiras.

Segundo a Polícia Civil, a inclusão dele na investigação está relacionada principalmente à transferência de valores que, conforme a apuração, saíram da associação e passaram inicialmente por sua conta antes de serem destinados ao pagamento da defesa jurídica do pai.

A participação atribuída a ele ainda depende da análise das provas e das demais etapas do procedimento criminal. O indiciamento, por si só, não significa que a responsabilidade penal esteja definitivamente estabelecida.

A reportagem que divulgou as informações informou que não conseguiu contato com as defesas de Cléber e Maicon até a última atualização.

Auditoria ajudou a ampliar a apuração

A investigação financeira ganhou dimensão maior depois que a atual presidência da associação de moradores identificou movimentações consideradas incompatíveis com a finalidade do condomínio e contratou uma auditoria externa.

Conforme relatado pelo delegado Tiago Ferrão à TV Anhanguera, a suspeita inicial envolvendo uma transferência para Maicon levou à verificação de outras operações. A auditoria teria apontado uma série de inconsistências que passaram a ser analisadas pela Polícia Civil.

A investigação patrimonial foi conduzida separadamente da apuração do homicídio. O objetivo é verificar se recursos administrados pelo síndico foram utilizados fora das finalidades da associação e identificar eventual responsabilidade de outras pessoas.

Esse tipo de apuração depende da análise documental, do rastreamento das movimentações bancárias e da comparação entre os pagamentos realizados e as despesas efetivamente relacionadas às atividades condominiais.

Novo indiciamento se soma ao caso Daiane

O desdobramento financeiro ocorre meses depois da prisão de Cléber no caso envolvendo a corretora Daiane Alves Souza.

Daiane desapareceu em 17 de dezembro de 2025, depois de descer ao subsolo do condomínio onde morava para verificar uma questão relacionada à energia elétrica de um dos apartamentos. Ela havia enviado vídeos a uma amiga antes de desaparecer.

As investigações da Polícia Civil apontaram que ela foi morta e que o corpo foi posteriormente levado para uma área de mata localizada a cerca de 15 quilômetros de Caldas Novas. Cléber foi preso em 28 de janeiro de 2026 e, segundo a Polícia Civil, indicou às autoridades o local onde o corpo havia sido deixado.

O caso criminal relacionado à morte tramita separadamente. Cléber responde por homicídio qualificado e ocultação de cadáver, enquanto a investigação patrimonial trata especificamente da administração dos recursos da associação de moradores.

Conflitos entre síndico e corretora já eram investigados

A relação entre Cléber e Daiane já era marcada por conflitos antes do desaparecimento da corretora.

Segundo a investigação, os desentendimentos estavam relacionados à administração de seis apartamentos pertencentes à família da vítima. Os imóveis anteriormente eram administrados pelo síndico, mas a gestão passou posteriormente para Daiane, situação que, conforme a Polícia Civil, teria provocado uma série de atritos.

O Ministério Público de Goiás também havia denunciado Cléber por perseguição contra a corretora, com acusação de que ele teria utilizado a posição de síndico para criar obstáculos à rotina dela e acompanhar seus movimentos por meio das câmeras do condomínio. A denúncia foi apresentada antes da descoberta do corpo.

O histórico de conflitos chegou ao Judiciário em diferentes processos. Segundo a Polícia Civil, havia 12 processos envolvendo Cléber e Daiane.

Investigação financeira tem consequências próprias

A abertura de um procedimento específico para investigar o uso do dinheiro do condomínio é relevante porque a administração de recursos coletivos exige que os valores sejam utilizados conforme as finalidades previstas e devidamente registrados.

No caso de Caldas Novas, os investigadores passaram a confrontar documentos, movimentações bancárias e despesas administrativas para identificar quais pagamentos tinham relação com as necessidades da associação e quais poderiam ter beneficiado pessoas ligadas à gestão.

O conjunto apontado pela investigação inclui desde gastos cotidianos, como combustíveis e telefonia, até despesas de maior valor, como escrituras e honorários advocatícios. A soma desses lançamentos levou a Polícia Civil a apontar prejuízo superior a R$ 106,4 mil.

A partir do indiciamento, o procedimento poderá seguir para análise do Ministério Público, que avaliará os elementos reunidos pela polícia e decidirá sobre as providências cabíveis. Eventual responsabilização criminal dependerá das etapas previstas no processo e de decisão judicial.

Caso expõe importância da fiscalização condominial

Além da dimensão criminal, a investigação chama atenção para a necessidade de mecanismos de controle sobre recursos administrados por síndicos e associações de moradores.

A fiscalização por parte dos condôminos, a atuação do conselho fiscal quando existente, a prestação periódica de contas, a guarda de documentos e a conferência de extratos bancários são instrumentos que permitem identificar movimentações incompatíveis com as despesas ordinárias do condomínio.

No caso investigado em Caldas Novas, a contratação de uma auditoria pela nova administração contribuiu para ampliar o levantamento das operações consideradas suspeitas pela Polícia Civil.

A apuração, contudo, ainda precisa ser tratada sob a perspectiva jurídica adequada: os valores e as operações descritos são elementos de um inquérito policial e de um indiciamento. A definição de eventual responsabilidade criminal cabe ao Poder Judiciário, após o devido processo legal.

O novo capítulo financeiro amplia a investigação que começou com o desaparecimento e a morte da corretora Daiane Alves, mas possui objeto próprio: esclarecer se recursos da associação de moradores foram utilizados irregularmente durante a gestão do então síndico e quem, eventualmente, participou dessas operações.

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Marcus

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