Cerrado perde área de vegetação nativa equivalente a 1,5 Goiás em 41 anos

MapBiomas aponta redução de 51,7 milhões de hectares entre 1985 e 2025; agricultura e pastagens foram responsáveis pela maior parte da expansão das áreas ocupadas
Os mapas mostram, para cada período de anos, as áreas do Cerrado que concentraram a expansão de pastagem, agricultura temporária e perda de vegetação nativa. Fonte: MapBiomas

O Cerrado perdeu 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, segundo dados da Coleção 11 do MapBiomas. A área corresponde a aproximadamente uma vez e meia o território de Goiás e revela a dimensão das mudanças provocadas pela expansão das atividades agropecuárias no segundo maior bioma brasileiro.

O levantamento reúne 41 anos de mapas anuais de cobertura e uso da terra e mostra que, em 2025, a vegetação nativa ocupava 49,6% do Cerrado, enquanto as áreas destinadas a atividades humanas representavam 49,5% do território. A diferença entre as duas categorias evidencia o grau de transformação alcançado pelo bioma ao longo das últimas quatro décadas.

As áreas antrópicas incluem principalmente pastagens e lavouras, mas também abrangem áreas urbanizadas, silvicultura, mineração e estruturas relacionadas à geração de energia.

Agricultura foi o uso que mais avançou

Embora a pastagem continue sendo o uso da terra predominante no Cerrado, a agricultura apresentou a maior expansão no período analisado.

Entre 1985 e 2025, as áreas agrícolas cresceram 24,7 milhões de hectares. As pastagens, por sua vez, aumentaram 17,3 milhões de hectares.

Somadas, agricultura e pastagem responderam por 81% da expansão dos usos antrópicos registrada no bioma durante a série histórica. Ao todo, as áreas ocupadas por atividades humanas cresceram 51,4 milhões de hectares, aumento de 108% em relação a 1985.

Em 2025, as pastagens ocupavam 27% do Cerrado, enquanto a agricultura correspondia a 14,8% do território.

O avanço ocorreu em diferentes períodos e regiões. Nas primeiras décadas monitoradas, a expansão agropecuária concentrou-se principalmente nas porções central e sul do bioma, incluindo Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.

Segundo a análise do MapBiomas e do IPAM, nesse primeiro período predominou a abertura de novas áreas para pastagem.

Formação savânica concentra a maior perda

Entre os diferentes tipos de vegetação natural do Cerrado, a formação savânica foi a que apresentou a maior redução absoluta.

Foram 33,9 milhões de hectares de perda líquida, aproximadamente dois terços da redução total de vegetação nativa registrada no bioma.

A formação savânica é característica da paisagem do Cerrado e, em 2025, ocupava 24% do território. A formação florestal correspondia a 19%, enquanto a formação campestre representava 2,3%. Campos alagados e áreas pantanosas respondiam por 3,2%.

A distinção entre perda bruta e perda líquida é importante para interpretar os números. A perda bruta contabiliza as áreas que deixaram de apresentar determinada cobertura vegetal, enquanto o cálculo líquido considera também áreas onde ocorreu regeneração.

Ritmo da perda mudou ao longo das décadas

Os dados também mostram que a transformação do Cerrado não ocorreu de maneira uniforme durante os 41 anos.

Entre 1985 e 2005, a perda média anual de vegetação nativa foi de aproximadamente 1,6 milhão de hectares. De 2005 a 2020, esse ritmo caiu para cerca de 0,8 milhão de hectares por ano.

Ao mesmo tempo em que a velocidade média de conversão diminuiu, o centro da pressão sobre o território mudou de localização.

A expansão passou progressivamente para o norte do Cerrado, principalmente em áreas dos estados da Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí.

A tendência voltou a ganhar intensidade entre 2020 e 2025. Nesse intervalo, a perda média anual de vegetação nativa chegou a 1,4 milhão de hectares.

Para Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM, a mudança geográfica das áreas de maior conversão aumenta a preocupação com a fragmentação dos remanescentes que ainda permanecem preservados.

Segundo a pesquisadora, a redução e o isolamento desses fragmentos podem comprometer a conectividade da paisagem e serviços ecossistêmicos importantes para o funcionamento do bioma.

Matopiba concentra nova frente de expansão

O deslocamento da pressão para o norte e nordeste do Cerrado está diretamente relacionado ao avanço da produção agropecuária no Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

O território ganhou importância na produção de commodities agrícolas e, ao mesmo tempo, mantém uma parcela significativa da vegetação nativa que ainda existe no Cerrado.

De acordo com os dados apresentados pelo IPAM, o Matopiba concentra 48% da vegetação nativa remanescente do bioma. Nos cinco anos mais recentes analisados, entretanto, a região respondeu por aproximadamente 66% da perda líquida de vegetação nativa registrada no Cerrado.

A expansão agrícola também foi expressiva.

Em 1985, o Matopiba possuía cerca de 200 mil hectares destinados à agricultura. Em 2025, a área chegou a 6,8 milhões de hectares. O crescimento equivale a 24 vezes e representa 22% de toda a área agrícola existente atualmente no Cerrado.

Para pesquisadores do IPAM, essa combinação coloca o Matopiba no centro do debate sobre conservação, produção agropecuária e planejamento territorial.

Ane Alencar, diretora de Ciência do instituto, relaciona a conservação da vegetação nativa do Cerrado à manutenção dos recursos hídricos e à estabilidade das condições que sustentam atividades econômicas.

Segundo ela, a conversão contínua de áreas naturais pode comprometer a disponibilidade de água e aumentar a vulnerabilidade da própria produção agropecuária diante das mudanças climáticas.

Goiás esteve entre as primeiras áreas de forte transformação

Goiás ocupa posição importante na história recente da ocupação do Cerrado. O estado esteve entre as áreas central e sul do bioma que concentraram a expansão agropecuária nas primeiras décadas da série histórica do MapBiomas.

Esse processo ajudou a modificar profundamente a paisagem regional, com substituição progressiva de áreas naturais por pastagens e, posteriormente, por áreas agrícolas.

O cenário atual, porém, apresenta uma mudança geográfica. Embora a transformação continue ocorrendo em diferentes pontos do Cerrado, as principais frentes recentes de conversão estão concentradas sobretudo no norte e nordeste do bioma.

O deslocamento não significa que as demais regiões tenham deixado de sofrer alterações. O levantamento também identifica transformações na área de transição entre Cerrado e Pantanal, especialmente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Cerrado e segurança hídrica

A preocupação com a perda de vegetação nativa ultrapassa a questão da conservação da biodiversidade.

O Cerrado possui papel relevante na dinâmica hídrica do território brasileiro, e alterações na cobertura vegetal podem interferir no funcionamento dos ecossistemas e na disponibilidade de recursos naturais.

É nesse contexto que pesquisadores do IPAM relacionam a conservação dos remanescentes à segurança hídrica, à regulação climática e à própria sustentabilidade da atividade agropecuária.

Ane Alencar afirma que a perda de vegetação pode alterar o regime de chuvas e aumentar a exposição da produção rural aos efeitos das mudanças climáticas.

A avaliação reforça uma questão central apontada pelos dados: o avanço das áreas produtivas ocorre justamente em um bioma no qual a proporção entre vegetação nativa e áreas de uso humano se aproximou da metade do território para cada categoria.

Novas classes ampliam monitoramento do território

A Coleção 11 do MapBiomas atualizou a série histórica de cobertura e uso da terra do Brasil até 2025.

Os mapas utilizam resolução espacial de 30 metros e permitem acompanhar mudanças ocorridas nos diferentes biomas brasileiros ao longo de mais de quatro décadas.

A nova edição passou a mapear 33 classes de cobertura e uso da terra, incluindo categorias como marisma, savana alagada, usinas fotovoltaicas e parques eólicos.

No Cerrado, as usinas fotovoltaicas ocupavam 13,4 mil hectares em 2025, enquanto os parques eólicos somavam 2,2 mil hectares.

A inclusão dessas categorias permite acompanhar não apenas a expansão agropecuária, mas também novas formas de ocupação do território associadas à infraestrutura e à geração de energia.

Os dados da Coleção 11 são disponibilizados pelo MapBiomas para consulta pública e podem ser utilizados por pesquisadores, órgãos ambientais, gestores públicos, empresas, jornalistas e organizações da sociedade civil.

Um bioma em transformação

Os 41 anos de dados mostram que a transformação do Cerrado ocorreu em diferentes velocidades e regiões. Primeiro, a expansão esteve fortemente concentrada no centro e no sul do bioma. Mais recentemente, a pressão avançou de maneira significativa sobre o norte e o nordeste, especialmente no Matopiba.

O resultado acumulado é uma redução de 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa e uma expansão de mais de 51 milhões de hectares das áreas destinadas a atividades humanas.

O desafio apontado pelo levantamento está em conciliar a importância econômica do Cerrado com a manutenção dos remanescentes naturais que ainda permanecem no bioma. No caso do Matopiba, onde se encontram grandes áreas contínuas de vegetação nativa e uma das principais fronteiras agrícolas brasileiras, essa discussão ganha importância estratégica para o futuro do território.

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Marcus

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