Centro de Referência em Oftalmologia da UFG reativa Banco de Olhos e reforça rede de transplantes em Goiás
Serviço volta a operar após seis anos, amplia captação de córneas e busca reduzir fila estadual que supera 1,8 mil pacientes

A retomada das atividades do Banco de Olhos do Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás representa um marco para a política estadual de transplantes. Após seis anos de paralisação, o serviço volta a integrar de forma plena a rede pública, ampliando a captação de córneas e fortalecendo a capacidade assistencial do Sistema Único de Saúde (SUS) em Goiás.
O restabelecimento foi viabilizado por convênio firmado com a Secretaria de Estado da Saúde e pela regularização de exigências técnicas e documentais junto ao Ministério da Saúde. O processo envolveu atualização de protocolos, certificações sanitárias, qualificação de equipes, definição de fluxos logísticos e adequação estrutural para captação, processamento e armazenamento de tecidos oculares.
Estrutura ampliada e atuação contínua
Com a reativação, o Cerof passa a manter equipes fixas em regime de plantão 24 horas em Goiânia e Anápolis, ampliando a capacidade de resposta diante de notificações de óbito. A atuação já foi iniciada no Hospital Estadual de Urgências Dr. Henrique Santillo, referência regional em urgência e emergência, onde as primeiras captações foram realizadas após comunicação formal de mortes por parada cardiorrespiratória.
Diferentemente de órgãos sólidos, a córnea pode ser doada tanto em casos de morte encefálica quanto após parada cardiorrespiratória, o que amplia o potencial de doação. O procedimento exige identificação ágil do óbito e abordagem familiar técnica e humanizada. O prazo para retirada do tecido é de até seis horas sem refrigeração corporal e até 12 horas quando há conservação adequada, parâmetros definidos em normativas sanitárias nacionais.
Especialistas destacam que praticamente todas as pessoas entre 2 e 80 anos podem ser doadoras, independentemente do uso de óculos. As principais contraindicações estão associadas a doenças infectocontagiosas ativas.
Impacto na fila estadual
A fila para transplante de córnea em Goiás é organizada pela Central Estadual de Transplantes, vinculada ao SUS, e segue critério cronológico, sem exigência de compatibilidade biológica. Atualmente, mais de 1,8 mil pacientes aguardam o procedimento, com tempo médio de espera próximo de um ano e nove meses, podendo ultrapassar dois anos em determinados casos.
Profissionais da área avaliam que o principal gargalo recente não esteve na capacidade cirúrgica — o Cerof mantém equipe transplantadora ativa há mais de duas décadas —, mas na escassez de tecidos disponíveis. Durante o período em que apenas um banco de olhos operava no estado, a oferta foi insuficiente para atender à demanda crescente.
Tecnologia e ganho assistencial
O banco reativado conta com equipamento de avaliação de córneas considerado de alta precisão, avaliado em aproximadamente R$ 1 milhão, único na região Centro-Oeste. A tecnologia permite análise detalhada da qualidade do tecido e, em situações específicas, a divisão de uma única córnea para beneficiar dois receptores distintos, estratégia que amplia a eficiência do sistema.
A direção do Cerof enfatiza que a manifestação prévia do desejo de doar, comunicada à família, é determinante para o êxito da captação. Embora a legislação brasileira reconheça a autorização familiar como requisito essencial, a decisão tende a ser facilitada quando o potencial doador expressa sua vontade em vida.
A reativação do Banco de Olhos consolida a integração entre hospital notificante, Organização de Procura de Órgãos (OPO), Central de Transplantes e equipe transplantadora, elemento considerado estratégico para reduzir o tempo de espera e ampliar o acesso ao transplante de córnea no estado.
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