Greve na saúde expõe crise estrutural na rede municipal de Goiânia e reacende cobrança por diálogo permanente no SUS
Paralisação de profissionais credenciados, motivada por atrasos salariais, falta de insumos e mudanças contratuais, pode se ampliar e atingir servidores efetivos

A paralisação iniciada por profissionais da saúde em Goiânia escancarou um conjunto de fragilidades estruturais da rede municipal e reacendeu o debate sobre a forma como a gestão pública tem conduzido o diálogo com os trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS). O movimento, deflagrado por profissionais credenciados de diferentes categorias, tem como eixo central a instabilidade nos pagamentos, a escassez de insumos básicos nas unidades e a adoção de medidas administrativas consideradas prejudiciais tanto aos trabalhadores quanto à qualidade da assistência prestada à população.
A mobilização envolve médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos e auxiliares de enfermagem, entre outros profissionais, e não se restringe a uma reivindicação pontual. Entidades representativas apontam que os atrasos salariais deixaram de ser episódios isolados e passaram a compor um cenário recorrente, comprometendo a previsibilidade financeira dos trabalhadores e afetando diretamente a organização do trabalho nas unidades de saúde.
Outro foco central de tensão é a política de credenciamento adotada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Sindicatos criticam a tentativa de alteração de regras contratuais por meio de novos editais, especialmente o Edital de Chamamento nº 03/2025, que prevê redução significativa nos honorários médicos e jornadas prolongadas, com cargas de até 24 horas contínuas. Para as entidades, a proposta não apenas precariza as relações de trabalho, como também representa risco assistencial, ao submeter profissionais exaustos a longos períodos de atendimento ininterrupto.
A insatisfação, contudo, vai além da remuneração. Representantes dos trabalhadores relatam dificuldades crônicas relacionadas à falta de medicamentos, materiais básicos e insumos essenciais, situação que se repete em diferentes unidades e pressiona quem atua diretamente na linha de frente do atendimento. Esse contexto, segundo os sindicatos, tem contribuído para o aumento de conflitos no ambiente de trabalho, com registros frequentes de tensão entre usuários e profissionais, muitas vezes sem que haja mecanismos institucionais eficazes de proteção ou mediação.
As entidades também criticam o esvaziamento dos canais formais de interlocução. A principal reivindicação política do movimento é a reativação da mesa de negociação permanente do SUS no âmbito municipal, espaço previsto nas diretrizes nacionais do sistema e considerado fundamental para a construção de soluções pactuadas. Para os sindicatos, a ausência desse fórum agravou o distanciamento entre gestão e trabalhadores, dificultando a resolução preventiva de conflitos e empurrando as categorias para a paralisação como último recurso.
Embora a greve tenha sido iniciada pelos profissionais credenciados, o movimento tende a ganhar maior dimensão. Servidores concursados avaliam aderir à mobilização, diante de queixas semelhantes e da percepção de que as dificuldades enfrentadas não se limitam a um único vínculo contratual. Uma nova rodada de assembleias deve definir os próximos passos e a eventual ampliação da paralisação.
Em nota oficial, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que, por se tratar de um serviço essencial, os atendimentos de urgência e emergência devem ser integralmente mantidos. A pasta também destacou ações recentes de reestruturação da rede, incluindo manutenção predial emergencial em dezenas de unidades, aquisição e distribuição de medicamentos e insumos antes em falta, além da troca da empresa responsável pela higienização e fornecimento de materiais de limpeza.
Apesar das medidas anunciadas, os sindicatos sustentam que as ações ainda não se traduziram em melhorias consistentes no cotidiano das unidades e defendem que apenas um diálogo institucional permanente, com transparência e participação efetiva dos trabalhadores, poderá restabelecer a confiança e garantir a sustentabilidade do sistema. A greve, nesse contexto, surge não apenas como instrumento de pressão, mas como sintoma de um impasse mais profundo na gestão da saúde pública da capital.
Veja nota da Secretaria Municipal de Saúde (SMS):
NOTA
“A Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS) informa que, em razão da natureza essencial dos serviços, os atendimentos de urgência e emergência precisam ser integralmente mantidos em todas as unidades da rede. A SMS pontua que o novo credenciamento adequa os valores dos plantões médicos à realidade de mercado e é embasado por estudo de impacto orçamentário e financeiro que avaliou os valores praticados em toda a região metropolitana de Goiânia.
A pasta esclarece que, tanto no edital antigo quanto no novo, o pagamento de profissionais credenciados é previsto no 20º dia útil do mês subsequente e que não há atualmente repasses em atraso. No entanto, para que os profissionais tenham maior previsibilidade no recebimento dos repasses a secretaria irá alterar a data de pagamento para o dia 25 de cada mês.
A secretaria ressalta que são os médicos, no ato da contratação, que optam pela carga horária desejada. O credenciamento estabelece limite máximo de 24h para plantões médicos, previsto na legislação brasileira e recomendado pelo Conselho Federal Medicina, resguardando os períodos de descanso dos profissionais.
A SMS destaca que a reconstrução das redes de atenção à saúde do município é um processo e que atua em diversas frentes para melhoria nas condições de trabalho dos profissionais de saúde. A secretaria informa que no ano passado mais de 40 unidades de saúde receberam serviços emergenciais de manutenção predial e que efetuou a entrega de mais de 3 mil novos móveis, em substituição a itens deixados em péssimas condições de uso pela gestão anterior.
Em 2025, a pasta adquiriu e distribuiu mais de 200 tipos de medicamentos e insumos que estavam em falta nas redes de atenção à saúde e promoveu a troca da empresa responsável pelo serviço de higienização e fornecimento de materiais de limpeza nas unidades de saúde, que estavam constantemente em falta.”
Tags: #SaúdePública #GreveNaSaúde #Goiânia #SUS #GestãoMunicipal #TrabalhadoresDaSaúde

